A cobertura do segundo turno presidencial ganhou momentos de divergência dentro da própria GloboNews,em discussões sobre a escala 6x1 e as entrevistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, comentaristas apresentaram interpretações diferentes sobre as estratégias dos candidatos, Merval Pereira esteve no centro de dois desses episódios, ao questionar o momento escolhido pelo governo e pelo Senado para votar a mudança na jornada de trabalho e, posteriormente, ao avaliar positivamente o desempenho dos dois presidenciáveis na televisão ,as discordâncias ocorreram em uma semana de intensa movimentação política, marcada pela aprovação da proposta sobre a jornada de trabalho, pelas sabatinas conduzidas por Renata Lo Prete e por uma reação do próprio Lula contra a Globo. Na sexta-feira, 16 de outubro, o presidente questionou a confiança que depositava na emissora depois de saber que Flávio Bolsonaro havia almoçado com integrantes da direção do grupo antes de sua entrevista ao Jornal Nacional.

 uma das declarações mais contundentes partiu de Merval Pereira durante a análise da votação sobre o fim da escala de trabalho 6x1, ao comentar o calendário escolhido para apreciar a proposta, o jornalista criticou Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, considerando oportunista a decisão de colocar o assunto em votação entre os dois turnos da eleição presidencial, a avaliação foi feita na quinta-feira, 15 de outubro, e repercutiu no dia seguinte e segundo o comentarista, a escolha do momento criou uma situação politicamente difícil para Flávio Bolsonaro, que enfrentaria desgaste caso votasse contra uma medida com forte apelo entre trabalhadores. Merval observou que o candidato do PL praticamente não tinha alternativa eleitoral a não ser apoiar a proposta, embora anteriormente tivesse questionado a forma como o governo conduzia a discussão ,essa crítica se diferenciou das análises que concentravam o debate na mudança de posição de Flávio. Em vez de limitar sua avaliação ao senador, Merval voltou a atenção para a estratégia adotada pelo governo e pela presidência do Senado. Para ele, o calendário da votação também precisava ser examinado como parte da disputa pelo Palácio do Planalto.

O assunto havia provocado embates entre as campanhas. Flávio criticara a utilização eleitoral da proposta e levantara preocupações sobre os custos da redução da jornada para as empresas. Posteriormente, anunciou que votaria a favor da mudança, argumentando que havia encontrado amplo apoio à medida entre trabalhadores durante suas viagens pelo país ,o candidato também passou a defender alternativas de flexibilização das jornadas, mantendo diferenças em relação ao projeto apoiado pelo governo, a discussão envolvia, portanto, duas questões distintas: o mérito da redução da jornada de trabalho e o uso político da votação às vésperas da escolha presidencial. Ao destacar a segunda, Merval apresentou uma interpretação que não se restringia às críticas dirigidas ao candidato do PL.

Elogio a Flávio provoca indignação em Julia Duailibi

Outra discordância apareceu na sexta-feira, depois da entrevista de Flávio Bolsonaro à TV Globo. Durante a Central das Eleições, Merval Pereira avaliou que tanto o senador quanto Lula haviam apresentado bons desempenhos nas respectivas sabatinas, o comentarista deixou claro que mantinha discordâncias em relação a posições defendidas pelos candidatos, mas considerou positivas suas participações como entrevistados porém Julia Duailibi apresentou um contraponto à avaliação, a jornalista chamou atenção para perguntas que, em seu entendimento, continuavam sem respostas satisfatórias, especialmente sobre o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica relacionada a Jair Bolsonaro. O tema havia sido abordado durante a entrevista de Flávio e também fazia parte das discussões políticas daquela semana, a diferença entre os dois jornalistas estava no critério utilizado para examinar a participação do candidato. Merval enfatizou a desenvoltura demonstrada na televisão, enquanto Julia destacou questões que ela considerava insuficientemente esclarecidas, mesmo as investigações até agora não apontando ilicitudes, as avaliações não eram necessariamente incompatíveis, mas produziram um contraste perceptível na cobertura, e o interesse politico de alguns jornalistas, a troca de avaliações ocorreu após uma sabatina em que Flávio tratou de assuntos sensíveis para sua campanha, incluindo o fim da escala 6x1, questões econômicas e o financiamento do filme sobre seu pai. O candidato afirmou que não pretendia reverter a mudança na jornada de trabalho caso fosse eleito,posição relevante diante das críticas que havia feito anteriormente à proposta.

Enquanto os comentaristas discutiam as entrevistas, uma nova noticia surgiu fora dos estúdios, porque na sexta-feira, Flávio Bolsonaro participou de um almoço com o presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, e o vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet, no Rio de Janeiro, o encontro ocorreu poucas horas antes de sua participação na sabatina do Jornal Nacional ,essa  notícia provocou reação da campanha de Lula, o ex-ministro Camilo Santana, integrante da coordenação eleitoral, considerou inadequado o momento escolhido para a reunião. Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação do governo, também manifestou preocupação com a proximidade entre o encontro institucional e a entrevista televisionada.

A Globo confirmou que recebeu o candidato, mas afirmou que a visita teve caráter institucional e não contou com a presença de integrantes da direção de Jornalismo. A emissora acrescentou que encontros de cortesia com candidatos fazem parte da rotina de executivos de empresas de comunicação, e durante uma atividade de campanha em Ipatinga, Minas Gerais, Lula afirmou que a emissora estava sob suspeição e declarou que não confiava nela, o petista também sugeriu que o grupo estaria contrariado com decisões tomadas por seu governo, associando sua avaliação ao caso do Banco Master.

Octavio Guedes e Merval: interpretações diferentes sobre o jogo eleitoral

A discussão sobre a escala 6x1 também trouxe para o debate a maneira como diferentes comentaristas interpretam o posicionamento de Flávio Bolsonaro ,Octavio Guedes havia criticado o senador pelo comportamento diante da proposta, enquanto Merval, em sua análise, chamou atenção para o oportunismo que atribuía a Lula e Alcolumbre na escolha do calendário de votação,já a mudança da posição de Flavio ele classificou como inteligente, pois ele considerou que o candidato foi encurralado e ficou sem saída teve que toma a decisão que menos prejudicava a sua campanha, o momento em que o governo decidiu levar a proposta adiante também passou a ser objeto de questionamento até mesmo por apoiadores, e na avaliação de Merval essa estratégia acabou resultando em criticas de uma política do campo governista.

As diferenças de avaliação dentro da GloboNews ocorreram em uma semana na qual os dois candidatos procuraram utilizar a televisão para ampliar suas mensagens. Lula participou da sabatina em 15 de outubro; Flávio foi entrevistado no dia seguinte. Ambos enfrentaram perguntas sobre suas propostas e decisões políticas, enquanto os comentaristas discutiam o conteúdo das respostas e o desempenho diante das câmeras a reação do presidente ao encontro de seu adversário com a direção da Globo acrescentou outro elemento à cobertura. Em vez de limitar suas críticas aos argumentos apresentados por Flávio,Lula passou a questionar a própria emissora, que respondeu defendendo o caráter institucional da reunião.

Os episódios mostram que a disputa eleitoral também se manifesta nas interpretações dos jornalistas sobre os acontecimentos. Merval criticou o calendário político adotado por Lula e Alcolumbre e elogiou o desempenho de Flávio na sabatina. Julia Duailibi apresentou ressalvas ao conteúdo das respostas do senador. Já o presidente transformou uma reunião institucional em motivo de contestação pública à Globo, essas diferenças de opiniões podem refletir um cenário interno até mesmo dentro do governo do Lula e de seus apoiadores , principalmente o que tange o calendário eleitoral em que essas medidas fora postas em pratica.