FOGO AMIGO NO PT! Aliados criticam campanha, Lula cobra Edinho Silva e divergências chegam à reta final da eleição

Lula classificou sua campanha como a menos organizada desde 1989, enquanto integrantes do próprio grupo político questionam a estratégia eleitoral, a comunicação e o desempenho do petista em entrevistas as críticas internas se intensificaram após o primeiro turno ,a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma sequência de cobranças que já não partem apenas da oposição. Integrantes do PT, aliados políticos e pessoas próximas à coordenação eleitoral passaram a questionar publicamente ou nos bastidores a condução da disputa presidencial, especialmente depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente do petista. As divergências envolvem a organização da campanha, a comunicação nas redes sociais e até a maneira como o presidente tem aproveitado suas aparições na televisão. O descontentamento chegou ao próprio Lula, que fez uma das críticas mais duras à equipe responsável por sua candidatura.

Em 7 de outubro, durante uma reunião com aliados em Brasília, o presidente afirmou que havia participado de uma campanha abaixo de suas possibilidades e classificou a organização do primeiro turno como a pior de sua trajetória eleitoral desde 1989. A declaração foi feita ao lado de Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador da campanha, que já enfrentava questionamentos de correligionários sobre a distribuição de materiais eleitorais e a condução das atividades nos estados. A cobrança ocorreu três dias depois de o resultado das urnas confirmar um cenário diferente daquele projetado por parte dos aliados, que esperavam Lula na liderança. O desconforto não desapareceu com o início do segundo turno. Em 15 de outubro, depois da entrevista concedida por Lula à TV Globo, integrantes do próprio campo governista voltaram a demonstrar insatisfação. Segundo relatos publicados pela imprensa, petistas avaliaram que o presidente adotou uma postura excessivamente institucional, deixou de explorar assuntos considerados favoráveis à sua candidatura e não fez um pedido de voto suficientemente enfático. A avaliação interna foi de que o desempenho não apresentou erros graves, mas desperdiçou oportunidades em uma disputa marcada pela necessidade de ampliar o apoio eleitoral.

Lula critica a própria campanha e expõe Edinho Silva

A insatisfação com a coordenação eleitoral ganhou força logo após o primeiro turno e na reunião de 7 de outubro, Lula declarou que sua campanha havia sido menos organizada do que as anteriores e atribuiu parte das dificuldades à condução do trabalho político. A fala teve repercussão porque ocorreu diante de parlamentares e dirigentes aliados, com transmissão parcial pela internet, e atingiu diretamente Edinho Silva, responsável pela articulação nacional da candidatura. Antes da cobrança presidencial, integrantes do PT já reclamavam da demora na chegada de materiais gráficos aos estados e de dificuldades na execução de ações eleitorais. A candidatura de Edinho à Câmara dos Deputados também havia provocado desconforto. Lula queria que o dirigente se dedicasse à coordenação da campanha, mas ele decidiu concorrer ao Legislativo. Embora tenha sido eleito, seu desempenho não garantiu a eleição de outros candidatos petistas, circunstância que passou a integrar as críticas internas.

A exposição pública do coordenador, entretanto, não agradou a todos os aliados. Interlocutores ouvidos pela Folha de S.Paulo avaliaram que Lula errou ao enfraquecer Edinho diante do próprio grupo político, quando poderia ter promovido mudanças sem tornar o descontentamento público. O episódio produziu uma situação incomum: o presidente cobrava a direção da campanha enquanto integrantes de seu entorno questionavam a maneira escolhida por ele para fazer essa cobrança, apesar das críticas, a substituição do presidente do PT não aparecia como a solução mais provável. A alternativa discutida era redistribuir responsabilidades e ampliar a participação de outras lideranças, incluindo o ex-ministro Camilo Santana e políticos com experiência em disputas estaduais. Geraldo Alckmin também foi mencionado entre os nomes que poderiam ganhar influência na reorganização eleitoral. A movimentação ocorreu em meio à tentativa de recuperar terreno após a votação de 4 de outubro, quando Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.

O novo foco de insatisfação apareceu depois da sabatina de 15 de outubro. Embora o presidente tivesse a oportunidade de apresentar propostas e responder às críticas feitas por Flávio Bolsonaro, integrantes da campanha consideraram que ele não explorou suficientemente temas preparados para a reta final. A avaliação relatada pela coluna Painel, da Folha, foi de que Lula se comportou mais como chefe de Estado do que como candidato em busca de votos , entre os assuntos mencionados pelos aliados estava a aprovação, no Senado, da proposta que altera a jornada de trabalho e põe fim à escala 6x1. A medida havia recebido 75 votos favoráveis e apenas um contrário, tornando-se uma das principais apostas políticas do governo durante a campanha. Mesmo assim, petistas sentiram falta de uma exploração mais incisiva do tema na entrevista, especialmente porque a votação havia ocorrido pouco antes da participação do presidente na televisão.

Outro ponto de insatisfação foi a ausência de ataques mais contundentes ao adversário. Integrantes do grupo governista consideraram que Lula poderia ter explorado a relação mencionada na imprensa entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. ,A crítica revela uma diferença de estratégia dentro da campanha: enquanto parte da equipe defende confrontos mais diretos, o presidente adotou uma postura mais contida naquela participação.

A avaliação de jornalistas políticos também registrou dificuldades na apresentação das propostas. Em análise publicada pelo UOL, Letícia Casado e José Roberto de Toledo apontaram que a entrevista dedicou pouco espaço ao fim da escala 6x1 e às propostas para um eventual novo mandato. Toledo também criticou a resposta de Lula sobre o reajuste do Bolsa Família, tema diretamente relacionado a uma das principais políticas sociais de seu governo. Essas observações são análises jornalísticas externas, não declarações de integrantes da campanha, mas coincidem em parte com as reclamações relatadas entre os aliados.


Redes sociais viram motivo de cobrança dentro do PT

As dificuldades de comunicação já vinham sendo discutidas antes do segundo turno. Em setembro, uma apuração da CNN Brasil apontou crescimento das disputas internas na campanha petista, com críticas à estratégia de comunicação e ao desempenho eleitoral. A aproximação de Flávio Bolsonaro nas pesquisas daquele período aumentou a pressão sobre os responsáveis pela candidatura, que enfrentavam cobranças de diferentes alas do partido, depois da votação de 4 de outubro, o debate ganhou novos contornos, aliados mais jovens e políticos eleitos com forte presença digital passaram a defender uma participação mais frequente de Lula nas redes sociais, com vídeos gravados pelo celular e mensagens menos dependentes das produções tradicionais de televisão. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, foi apontado como um dos defensores desse formato. A equipe também buscou aproximar o presidente de parlamentares que haviam obtido bons resultados eleitorais utilizando plataformas digitais.

A mudança apareceu nas publicações do próprio Lula, que passou a gravar vídeos vergonhosos em formato de selfie para convocar apoiadores e estimular a mobilização nas ruas, esse ajuste ocorreu depois de críticas ao tom considerado pouco incisivo das peças divulgadas durante o primeiro turno. Integrantes da campanha entendiam que o material havia demorado a responder aos ataques dos adversários e que a comunicação precisava ser mais rápida para acompanhar o ritmo das discussões políticas na internet, as reclamações revelaram diferenças entre dirigentes acostumados às campanhas tradicionais e aliados que defendem uma estratégia mais concentrada no ambiente digital. A reorganização não se limitou à produção de vídeos. Também houve discussões sobre os assuntos que deveriam receber maior destaque, incluindo segurança pública, economia e propostas de mudanças no Judiciário.

Segurança pública e STF também dividem estratégias

Outro foco de divergência surgiu na escolha das bandeiras eleitorais. Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes da campanha discordaram sobre a conveniência de Lula defender uma reforma do Judiciário, principalmente porque o assunto também vinha sendo explorado por adversários do presidente, parte dos aliados avaliava que insistir nessa pauta poderia favorecer o debate proposto pelo campo da direita, em vez de concentrar a campanha nos temas considerados mais vantajosos para o governo, a segurança pública também ganhou espaço na tentativa de reformulação do discurso. Em 7 de outubro, Lula anunciou há alguns dias do segundo turno uma orientação mais dura contra a criminalidade, defendendo proteção aos trabalhadores e prisão para criminosos., essa  mudança ocorreu em um momento no qual o combate à violência aparecia entre as principais preocupações dos eleitores e recebia atenção crescente da campanha de Flávio Bolsonaro desde o começo da campanha dele , e Lula agora resolveu surfar nessa pauta e no Congresso, a discussão ganhou um novo capítulo com a proposta de redução da maioridade penal apresentada pelo senador Rogério Marinho, coordenador da campanha do PL. A emenda à PEC da Segurança Pública previa responsabilização criminal a partir dos 16 anos e, nos casos de crimes hediondos, a partir dos 14. A iniciativa colocou o governo diante de uma pauta historicamente rejeitada pelo PT, mas que contava com apoio expressivo da população, uma pesquisa Datafolha divulgada em julho apontava79% de aprovação à redução da maioridade penal.

A proposta acrescentou pressão à estratégia governista, que pretendia destacar a tramitação de medidas sobre segurança, jornada de trabalho e benefícios para microempreendedores. A votação da PEC da Segurança acabou entrando nas negociações do Senado, enquanto o Planalto buscava preservar o andamento de projetos que pretendia apresentar como realizações durante a campanha, em meio às divergências, Fernando Haddad assumiu papel importante na mobilização eleitoral em São Paulo. Durante um ato realizado em 14 de outubro no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, o ex-ministro afirmou que a campanha havia percorrido mais da metade do caminho necessário para reverter a diferença registrada no primeiro turno. A declaração ocorreu durante uma série de mobilizações organizadas por aliados em diferentes regiões do país.

Haddad também pediu atenção aos eleitores indecisos e àqueles que ainda não haviam definido o voto. A preocupação com São Paulo tinha uma razão concreta: no maior colégio eleitoral brasileiro, Flávio Bolsonaro havia recebido 51,93% dos votos válidos no primeiro turno, enquanto Lula alcançou 38,20%. A diferença ampliou a importância das atividades de campanha no estado, onde o PT passou a concentrar esforços para melhorar seu desempenho, as mobilizações, porém, não eliminaram as cobranças internas. Enquanto dirigentes tentavam reorganizar a campanha, aliados continuavam apontando falhas na comunicação e oportunidades perdidas nas aparições públicas do presidente. O descontentamento atingiu diferentes etapas da disputa, desde a distribuição de materiais eleitorais até a preparação para entrevistas e a escolha das mensagens utilizadas nas redes sociais.

A campanha de Lula chega à reta final do segundo turno com mudanças na coordenação das atividades, participação ampliada de lideranças estaduais e pressão para tornar o discurso mais competitivo. As críticas relatadas até agora não demonstram um rompimento organizado entre os principais aliados, mas registram divergências concretas sobre a condução da candidatura. A menos de dez dias da votação de 25 de outubro, a direção petista ainda trabalha para corrigir problemas que seus próprios integrantes passaram a reconhecer publicamente ou nos bastidores.