O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, no fim de agosto, uma mudança nas regras fiscais que poderá reduzir em bilhões de reais os recursos destinados à Saúde e à Educação em 2027. A medida chama atenção não apenas pelo tamanho do impacto estimado, mas também pelas escolhas orçamentárias feitas pelo governo ao longo dos últimos anos, a Lei Complementar 235/2026 foi sancionada por Lula em 27 de agosto. Entre outras alterações, a legislação modifica regras relacionadas a recursos destinados às duas áreas e permite antecipar para 2026 até R$ 3 bilhões que originalmente seriam destinados em 2027 ,segundo estimativas do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento, os dispositivos podem representar uma redução entre R$ 8,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões no financiamento da Saúde e da Educação em 2027. Quando também são considerados recursos provenientes de royalties e participação especial do petróleo e gás, o impacto agregado estimado pode chegar a absurdos R$ 16,6 bilhões. 

Ou seja, não se trata de alguns milhões perdidos em meio a um orçamento gigantesco e no cenário mais elevado calculado pelos economistas, estamos falando de R$ 16,6 bilhões que poderiam deixar de reforçar duas das áreas muito sensíveis e importante para a população ,e é justamente neste ponto que surge uma pergunta inevitável sobre as prioridades do governo federal: diante da necessidade de ajustar as contas públicas, Saúde e Educação precisavam estar entre as áreas atingidas? a situação fica ainda mais revoltante, quando lembramos que o governo Lula bateu um recorde de arrecadação só em 2024, a arrecadação federal chegou a aproximadamente R$ 2,65 trilhões em valores corrigidos pela inflação, até então o maior resultado da série histórica iniciada em 1995 e o crescimento real sobre 2023 foi de 9,6% .Só que esse recorde foi quebrado novamente em 2025 quando a arrecadação da União alcançou cerca de R$ 2,89 trilhões, com crescimento real de aproximadamente 3,75% sobre 2024 , mas não acabou por ae já que 2026 também está muito forte e até agosto, a arrecadação federal já somava aproximadamente R$ 2,11 trilhões, crescimento nominal de 11,8% e alta real de 7,12% sobre o mesmo período de 2025. Só agosto arrecadou R$ 235,57 bilhões, recorde para o mês desde 1995 , então fica a pergunta, diante de tanta arrecadação, porque o governo esta fazendo cortes justamente em áreas tão importantes ? a resposta pode deixar um gosto amargo na boca de milhões de brasileiros.

Governo federal já gastou mais de R$ 1,5 bilhão em cartões desde 2023

Enquanto busca mecanismos para conter despesas, o governo Lula acumulou um volume expressivo de pagamentos utilizando os cartões do governo federal, popularmente conhecidos como cartões corporativos.Dados do Portal da Transparência mostram que os gastos totais por meio desses cartões chegaram a aproximadamente R$ 430,5 milhões em 2023, R$ 584,6 milhões em 2024 e R$ 423,3 milhões em 2025 e somados, são aproximadamente R$ 1,44 bilhão em apenas três anos, mas esse dado fica ainda pior  porque em 2026, a conta continuou aumentando. Até fevereiro, outros R$ 85,5 milhões já haviam sido registrados, levando o acumulado desde 2023 naquele momento para aproximadamente R$ 1,52 bilhão , o volume coloca novamente sob discussão o tamanho dos gastos da máquina pública. Afinal, enquanto o governo defende medidas para adequar as contas federais às regras fiscais, bilhões de reais continuam sendo movimentados por diferentes órgãos da própria administração, o contraste ganha ainda mais força quando Saúde e Educação aparecem justamente entre as áreas afetadas por mudanças destinadas a aliviar as contas públicas, e a situação ganha um componente de ironia política quando se observa o discurso adotado antes da chegada de Lula ao Palácio do Planalto.

Durante o governo Bolsonaro, Lula e integrantes do PT fizeram das despesas com cartões corporativos e, principalmente, do sigilo imposto sobre parte desses gastos um dos alvos de suas críticas. O tema foi explorado politicamente pela oposição da época como exemplo da necessidade de maior transparência sobre os gastos públicos, os números registrados posteriormente, porém, criaram um contraste com aquelas cobranças e se considerarmos a utilização dos cartões pelo conjunto do governo federal e adotando a mesma metodologia de comparação, foram gastos aproximadamente R$ 1,03 bilhão durante os quatro anos do governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Já nos três primeiros anos do atual governo Lula, entre 2023 e 2025, o montante chegou a aproximadamente R$ 1,44 bilhão , isso significa que apenas três anos do atual governo acumularam cerca de R$ 410 milhões a mais, diferença próxima de 40%, do que os quatro anos completos da administração anterior e é justamente esse contraste que transforma as antigas críticas em um problema político para o próprio governo: as cobranças feitas quando Lula e o PT estavam na oposição agora podem ser confrontadas com os números registrados depois que voltaram ao comando do Executivo , essa a comparação se torna ainda mais relevante diante do atual discurso de necessidade de ajuste das contas públicas. Enquanto mudanças fiscais atingem recursos destinados à Saúde e à Educação, os gastos realizados por meio dos cartões do governo federal superaram, em apenas três anos, o montante nominal registrado durante todo o governo anterior.

Quase R$ 34 bilhões em emendas antes do período eleitoral

Outro número chama atenção justamente em um ano de eleição presidencial ,até o início de julho de 2026, o governo Lula havia pago nada menos que R$ 33,89 bilhões em emendas parlamentares esse montante foi registrado pelo Siga Brasil, sistema mantido pelo Senado Federal, e corresponde ao maior volume já desembolsado em um período pré-eleitoral na série analisada,para se ter dimensão, o valor liberado até 5 de julho de 2026 já era superior aos R$ 28,04 bilhões pagos durante todo o ano eleitoral de 2022 e dos R$ 33,89 bilhões desembolsados neste ano, aproximadamente R$ 25,31 bilhões correspondiam a emendas de 2026, enquanto outros R$ 8,58 bilhões eram referentes a anos anteriores. então o governo encontrou espaço financeiro para pagar quase R$ 34 bilhões em emendas parlamentares antes do período eleitoral, enquanto uma mudança sancionada pelo próprio presidente pode resultar em bilhões a menos para Saúde e Educação no próximo ano , o volume chama atenção principalmente pelo momento em que foi liberado. Enquanto por uma lado o governo avançava com medidas para conter despesas e alterar regras que afetam os recursos destinados à Saúde e à Educação, por outro lado quase R$ 34 bilhões em emendas parlamentares já haviam sido pagos antes do período eleitoral. esse diferença de escala e expõe uma discussão inevitável sobre as prioridades adotadas pelo governo, porque pelo que vimos quando chega a hora de ajustar as contas, a população tem o direito de questionar por que áreas essenciais aparecem entre as atingidas enquanto dezenas de bilhões de reais continuam sendo destinados a outras frentes do Orçamento.

Lei Rouanet captou cerca de R$ 8,8 bilhões entre 2023 e 2025

Há outro ponto que merece entrar nessa discussão, e é a política de incentivo à cultura, a famosa e polêmica Lei Rouanet, durante os três primeiros anos completos do atual governo Lula, projetos enquadrados na Lei Rouanet captaram aproximadamente R$ 8,8 bilhões, e em 2025 esse incentivo sozinho, atingiu o recorde de R$ 3,41 bilhões captados, segundo relatório oficial do Ministério da Cultura. Foram 22.971 propostas apresentadas naquele ano e 14.847 projetos considerados aptos à captação ,A Lei Rouanet permite que empresas e pessoas físicas direcionem parte do Imposto de Renda para financiar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura ,esse mecanismo ganhou força enorme novamente durante o terceiro mandato de Lula e alcançou sucessivos recordes de captação ,de forma simples o governo deixe de arrecadar esse valor, que com certeza faria muita diferença em vários setores, e vendo esses valores exorbitante ,e assim colocamos mais uma vez as prioridades do governo no centro da discussão porque enquanto bilhões de reais são movimentados por meio de incentivos à cultura, Saúde e Educação enfrentam uma mudança capaz de reduzir significativamente os recursos disponíveis em 2027, diante desse cenário, a pergunta se repete: era realmente necessário buscar economia justamente em duas das áreas mais essenciais para a população?.

Afinal, precisava atingir justamente Saúde e Educação? é nesse ponto que as  contradições  se encontram , porque de um lado temos uma legislação sancionada por Lula que, segundo estimativas do próprio governo, isso poderá representar impacto de até R$ 16,6 bilhões sobre recursos destinados à Saúde e à Educação em 2027 e Do outro, um governo que acumulou aproximadamente R$ 1,44 bilhão em gastos com cartões de pagamento entre 2023 e 2025, pagou R$ 33,89 bilhões em emendas parlamentares até o início de julho de 2026 e administra uma política de incentivo cultural que permitiu a captação de aproximadamente R$ 8,8 bilhões entre 2023 e 2025, parece dois governos completamente diferentes, mas é apenas os dois lados de uma mesma moeda , a verdade é que Lula diz uma coisa, e faz outra , o governo no entanto pode argumentar que precisa cumprir metas fiscais, administrar despesas obrigatórias e reorganizar o Orçamento. Também pode sustentar que emendas possuem regras constitucionais próprias e que incentivos culturais geram atividade econômica, mas ainda sim a questão central permanece , antes de aceitar uma redução potencial de bilhões nos recursos disponíveis para hospitais, escolas e universidades, todas as demais possibilidades de contenção de despesas e revisão de incentivos foram realmente esgotadas?

Saúde e Educação estão entre os serviços públicos que chegam diretamente à população. São hospitais que precisam de profissionais e equipamentos, escolas que dependem de estrutura, universidades que precisam manter suas atividades e municípios que dependem de transferências federais ,quando o dinheiro fica curto, portanto, a discussão não deveria terminar na justificativa de que é preciso equilibrar as contas. É preciso perguntar onde o governo escolheu economizar e onde decidiu continuar gastando, os números mostram que o problema fiscal brasileiro envolve valores muito maiores do que os destinados a uma única política pública. E justamente por isso qualquer redução capaz de atingir Saúde e Educação precisa ser acompanhada de uma explicação convincente sobre quais outras despesas foram revistas antes, a conta pública precisa fechar. A discussão que permanece aberta é quem deve pagar por esse ajuste — e quais prioridades deveriam ser preservadas quando chega a hora de cortar gastos.