A disputa presidencial ganhou um componente particularmente incômodo para o Palácio do Planalto a poucas semanas do primeiro turno. A nova rodada do Datafolha encontrou Flávio Bolsonaro (PL) com 47% contra 42% de Lula (PT) em São Paulo numa simulação direta de segundo turno. Em Minas Gerais, onde o petista venceu Jair Bolsonaro por uma diferença mínima em 2022, o placar agora está praticamente dividido: 46% para Lula e 45% para Flávio.
São Paulo e Minas não são dois estados quaisquer dentro da matemática eleitoral. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, São Paulo tem 34,1 milhões de eleitores, enquanto Minas reúne 16,37 milhões. Juntos, representam mais de 50 milhões de pessoas aptas a votar. Só o eleitorado paulista corresponde a pouco mais de 21% do total nacional.
O levantamento estadual também chega num momento em que a eleição nacional está apertada. Na pesquisa nacional mais recente do Datafolha, Lula aparece com 39% no primeiro turno e Flávio com 35%. Em eventual segundo turno, os números ficam em 46% a 44%, dentro da margem de erro. A liderança nominal do presidente no cenário nacional, portanto, convive com um mapa estadual bastante mais hostil quando a análise chega aos maiores colégios do Sudeste.
São Paulo combina vantagem de Flávio com avaliação ruim do governo federal

O resultado paulista chama atenção não apenas pelos cinco pontos de vantagem de Flávio sobre Lula. O Datafolha entrevistou 1.610 eleitores no estado e calculou margem de erro de dois pontos percentuais. A diferença observada no confronto direto fica, portanto, além da margem de empate usada no levantamento.
No primeiro turno, a disputa paulista aparece mais apertada. Flávio registra 35% e Lula 33%, seguidos por Augusto Cury, com 7%, Renan Santos, com 6%, e Ronaldo Caiado, com 4%. Romeu Zema e Samara Martins aparecem com 2% cada. Outros 6% mencionam voto branco ou nulo e 2% estão indecisos.
A situação do governo federal entre os paulistas ajuda a compor o cenário. Apenas 25% avaliam a administração Lula como ótima ou boa em São Paulo, enquanto 48% a classificam como ruim ou péssima. A diferença entre os dois grupos chega a 23 pontos percentuais.
Ao mesmo tempo, Flávio divide o palanque paulista com um governador que chega à campanha em posição eleitoral confortável. Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece com 49% dos votos totais na disputa estadual, ante 29% de Fernando Haddad. Considerados apenas os votos válidos, Tarcísio alcança 56%, percentual que permitiria vitória já no primeiro turno caso se repetisse nas urnas. Num segundo turno entre os dois, o Datafolha aponta 56% para Tarcísio e 35% para Haddad.
A associação entre as duas campanhas dá a Flávio uma estrutura estadual importante exatamente onde existe o maior número de votos em disputa. Tarcísio participou do comício de 7 de Setembro na avenida Paulista ao lado do candidato presidencial e apoia formalmente sua candidatura. A campanha do PT, por sua vez, depende de Haddad para tentar reduzir a diferença no estado enquanto enfrenta uma avaliação negativa do governo federal próxima de metade do eleitorado paulista.
São Paulo já havia sido um dos principais obstáculos para Lula em 2022. Jair Bolsonaro terminou o segundo turno daquele ano com 55,2% no estado, contra 44,8% do petista, abrindo aproximadamente 2,7 milhões de votos de vantagem. O Datafolha atual não reproduz exatamente aquela distância, mas mantém o estado inclinado ao candidato do PL no confronto direto.
Minas voltou ao empate depois de decidir 2022 por menos de 50 mil votos
Minas Gerais oferece um quadro mais estreito. Lula aparece com 46%, Flávio com 45%, e a margem de erro é de três pontos percentuais. O instituto realizou 1.204 entrevistas presenciais no estado entre 8 e 10 de setembro.
A diferença ganha peso quando comparada à eleição passada. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro em Minas por apenas 0,4 ponto percentual, aproximadamente 49,5 mil votos. Num estado com mais de 16 milhões de eleitores em 2026, a margem que separou os dois candidatos quatro anos atrás correspondeu a uma pequena fração do eleitorado.
A avaliação da administração federal também está negativa entre os mineiros pesquisados. O Datafolha encontrou 34% de ótimo ou bom para o governo Lula e 43% de ruim ou péssimo. O percentual negativo supera o positivo em nove pontos.
A eleição estadual acrescenta outra dificuldade ao campo governista. Cleitinho Azevedo (Republicanos), identificado com o eleitorado do Flavio lidera a disputa pelo governo de Minas com 37%. Patrus Ananias (PT) aparece com 13%, tecnicamente empatado com Alexandre Kalil (PDT), que tem 11%.
Minas tradicionalmente recebe atenção redobrada das campanhas presidenciais por reunir regiões com perfis econômicos e eleitorais bastante diferentes. A área metropolitana de Belo Horizonte, o Triângulo Mineiro, o Sul de Minas, a Zona da Mata e as regiões Norte e Nordeste do estado não votam de maneira uniforme. Essa fragmentação ajuda a produzir disputas apertadas como a registrada em 2022.
Para Flávio, aproximar-se da metade dos votos mineiros enquanto São Paulo permanece favorável reduz a necessidade de compensar perdas muito grandes dentro do próprio Sudeste. Para o PT, Minas deixou de funcionar como uma vantagem estadual minimamente confortável e voltou ao mesmo terreno de disputa voto a voto observado quatro anos atrás.
Rio e Distrito Federal ampliam a vantagem de Flávio fora de São Paulo

A avaliação do governo federal nesses dois locais também está deteriorada. No Rio, 27% classificam a gestão como ótima ou boa, contra 50% que a consideram ruim ou péssima. No Distrito Federal, são 26% de avaliações positivas diante de 51% negativas.
O Rio é o terceiro maior colégio eleitoral do Brasil, com cerca de 12,85 milhões de eleitores, segundo o TSE. Somados, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram mais de 63 milhões de votantes.
Pernambuco segue em direção oposta. Ali, Lula registra 61% e Flávio 30%. O governo federal também encontra seu melhor resultado entre os cinco locais pesquisados pelo Datafolha no estado, com 46% de avaliações positivas e 31% negativas.
O quadro deixa a campanha presidencial bastante dependente da diferença produzida entre os grandes blocos regionais .Lula continua obtendo seus melhores percentuais no Nordeste, enquanto Flávio apresenta vantagem expressiva em importantes mercados eleitorais do Sudeste e no Distrito Federal. Em pesquisa anterior do Datafolha, Flávio também apareceu à frente no Sul, com 44%, enquanto Lula tinha 25% naquele recorte regional.
A diferença entre 2022 e 2026 está no tamanho das margens
A eleição de 2022 terminou com uma diferença nacional estreita, mas os estados produziram margens muito diferentes entre si. Bolsonaro abriu vantagem relevante em São Paulo e no Rio, enquanto Lula obteve ampla frente em estados nordestinos e conquistou Minas por pequena diferença.
O mapa de 2026 preserva parte dessa divisão, embora os personagens tenham mudado. Flávio herdou parcela considerável do eleitorado associado ao ex-presidente e chega ao confronto direto competitivo nos estados onde Jair Bolsonaro teve seus resultados mais fortes. O Datafolha também registra rejeições nacionais elevadas para os dois principais concorrentes: 47% dizem não votar de jeito nenhum em Flávio e 45% respondem o mesmo sobre Lula.
A disputa paulista oferece uma diferença adicional. O candidato presidencial do PL encontra um governador aliado liderando com larga vantagem, enquanto o candidato petista ao governo estadual aparece distante de Tarcísio. Em Minas, a liderança de Cleitinho também deixa o campo ligado à direita com uma candidatura estadual competitiva.
No primeiro turno nacional, candidatos como Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema ainda dividem uma parcela do eleitorado. Levantamentos divulgados ao longo da última semana por diferentes institutos continuam colocando Lula e Flávio como os dois nomes mais competitivos e apontam disputa apertada no segundo turno.
A campanha entra nas semanas decisivas com 34,1 milhões de votos potenciais em São Paulo, mais 16,3 milhões em Minas e 12,8 milhões no Rio de Janeiro. O resultado mais recente coloca Flávio à frente em dois desses três estados e tecnicamente empatado em Minas.
Dados da pesquisa
A pesquisa Datafolha em São Paulo foi realizada presencialmente entre 8 e 10 de setembro com 1.610 entrevistados e margem de erro de dois pontos percentuais. Em Minas Gerais foram 1.204 entrevistas, com margem de três pontos. Rio de Janeiro e Pernambuco também tiveram 1.204 entrevistados cada; no Distrito Federal foram 910. O nível de confiança informado é de 95%. Os levantamentos foram contratados pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e estão registrados na Justiça Eleitoral, incluindo os registros SP-04189/2026, MG-01611/2026 e BR-03904/2026.
