A menos de um mês do primeiro turno, pesquisas de diferentes institutos mostram Lula ainda competitivo, mas incapaz de abrir vantagem segura sobre Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa direta. Para um presidente que tenta a reeleição comandando o governo federal, chegar a setembro praticamente empatado com o principal adversário revela uma vulnerabilidade política difícil de esconder.
A pesquisa Palver divulgada nesta quarta-feira, 9 de setembro, colocou Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula em um eventual segundo turno: 46% contra 44%.Como a margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, o resultado configura empate técnico. No primeiro turno, o mesmo levantamento registra equilíbrio semelhante: em um dos cenários, os dois aparecem com 40%; em outro, Lula marca 40% e Flávio, 39%. Foram entrevistados 5.000 eleitores entre 4 e 8 de setembro, e a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-05420/2026.
O resultado isolado já seria relevante. O quadro fica politicamente mais incômodo para Lula quando comparado a outros levantamentos recentes. No BTG/Nexus, Flávio aparece com 46% contra 45% do presidente no segundo turno. A Quaest registrou 41% a 41%. O Datafolha mostrou Lula com 46% e Flávio com 44%, também dentro da margem de erro. Os institutos utilizam metodologias diferentes e apresentam variações naturais, mas chegam ao mesmo ponto: ninguém pode tratar uma eventual disputa entre os dois como confortável para o atual presidente.
Lula ainda lidera o primeiro turno, mas essa é apenas metade da história
Seria incorreto esconder que Lula continua à frente de Flávio em pesquisas importantes de primeiro turno. A Quaest divulgada em 7 de setembro colocou o atual presidente com 36% e o senador com 29%. O Datafolha registrou 38% contra 33%. Essa vantagem existe e precisa ser registrada. O dado politicamente mais revelador, porém, surge quando o eleitor é obrigado a escolher diretamente entre os dois: a distância praticamente desaparece.Para um governo que chegou ao poder em janeiro de 2023 e passou quase quatro anos com a Presidência da República, ministérios, agenda oficial e enorme exposição pública, entrar no último mês da campanha sem conseguir transformar essa posição em vantagem confortável merece uma leitura severa. Lula não está enfrentando um candidato desconhecido que surgiu de repente. Enfrenta o representante eleitoral de uma direita que o PT passou anos tratando como derrotada, isolada ou incapaz de reconstruir uma maioria nacional. Os números de setembro mostram uma realidade bem diferente.
Há também um indicador que ajuda a entender por que a eleição apertou. O Datafolha de setembro apontou 42% de avaliação ruim ou péssima para o governo Lula, contra 31% que o consideram ótimo ou bom e 25% que o classificam como regular. A desaprovação pessoal do presidente chegou a 51%, enquanto 45% disseram aprová-lo. Em julho, a avaliação negativa do governo estava em 38%; portanto, o movimento recente foi de piora, não de recuperação.
Esse dado desmonta uma interpretação conveniente segundo a qual a dificuldade eleitoral de Lula seria explicada apenas pela força política da família Bolsonaro. Existe uma insatisfação mensurável com a própria administração federal. Um presidente com avaliação negativa superior à positiva por onze pontos enfrenta um problema que nenhuma peça publicitária resolve sozinha. O eleitor pode discutir nomes, ideologia e rejeições pessoais, mas também julga quem está administrando o país naquele momento. Quando 42% classificam a gestão como ruim ou péssima, a candidatura governista carrega esse peso para dentro da urna, a crise envolvendo o supremo tribunal federal e o diretor geral da policia federal pode ter agravado a situação do lula, afinal foi ele próprio quem indicou Andrei Rodrigues ao cargo, e isso só teria piorado a situação porque o governo ja vinha acumulando polemicas ,envolvendo Jaques Wagner e até mesmo próprio filho do presidente, e em meio a tudo isso a população enxerga um custo de vida elevado e uma alta carga tributaria, tudo isso somado ajuda a entender a alta rejeição do lula, pelo menos boa parte dela
Flávio deixou de ser apenas o candidato que tenta chegar ao segundo turno
Durante boa parte da disputa, a pergunta era se Flávio Bolsonaro conseguiria consolidar toda a direita em torno de seu nome e chegar ao segundo turno. Setembro mudou o tamanho dessa discussão. O senador não aparece somente como segundo colocado; aparece em condições de disputar a Presidência voto a voto contra Lula. O BTG/Nexus registra vantagem numérica de Flávio, a Palver faz o mesmo, a Quaest mostra igualdade absoluta e o Datafolha mantém diferença de apenas dois pontos favorável ao petista. Nenhuma dessas pesquisas autoriza decretar vitória de qualquer lado, mas todas afastam a ideia de uma eleição resolvida antecipadamente.
Há uma diferença programática relevante por trás dessa polarização. O plano apresentado por Flávio prevê redução de pelo menos dez ministérios e implantação de um novo teto de gastos, enquanto Lula defende a manutenção do atual arcabouço fiscal e do investimento público como instrumento de crescimento. Para o eleitor de direita preocupado com expansão permanente da máquina pública, controle de despesas e previsibilidade fiscal, existe aí uma escolha concreta de modelo econômico, e não apenas uma disputa entre sobrenomes.
a imagem do governo que já vinha sendo desgastada, sofreu um grande golpe com a "taxa das Blusinhas" e em meio o desespero para ganhar popularidade, o governo atual trabalhou incansavelmente para reverter uma taxa, que eles mesmo defendiam e criaram, e isso claro, foi visto com maus olhos pela população ,que se sentiu enganada.
Flávio ainda carrega uma dificuldade importante: rejeição elevada. Segundo o Datafolha, 47% afirmam que não votariam nele de maneira alguma, enquanto Lula registra 45% no mesmo indicador. Ignorar esse número produziria uma análise eleitoral ruim. A campanha do PL precisa reduzir resistência fora do eleitorado já identificado com a direita, principalmente se pretende transformar empate técnico em maioria efetiva no segundo turno. O fato de o candidato chegar competitivo apesar desse nível de rejeição também mostra o tamanho da resistência existente ao atual governo.
O desgaste de Lula passou a ser um componente central da eleição

Também chama atenção a trajetória registrada pela Quaest. Lula chegou a ter vantagem de oito pontos sobre Flávio entre maio e julho numa eventual disputa direta. Na pesquisa divulgada agora em setembro, os dois aparecem com 41%. A deterioração ocorreu acompanhada por aumento da preocupação do eleitorado com endividamento e corrupção e por uma piora na avaliação presidencial. Não se trata, portanto, de apenas uma fotografia de um instituto; existe uma mudança perceptível na competição eleitoral ao longo dos últimos meses.
Lula continua sendo um candidato forte. Possui eleitorado consolidado, mantém desempenho especialmente elevado no Nordeste e ainda lidera o primeiro turno em levantamentos nacionais relevantes. Reconhecer esses fatos não torna o desempenho do governo menos problemático. Ao contrário: eles tornam o empate de segundo turno ainda mais significativo. Mesmo partindo de uma base eleitoral robusta e ocupando a Presidência, o petista chega a setembro sem conseguir estabelecer vantagem segura sobre seu principal adversário.
Para Flávio Bolsonaro, o desafio agora é ampliar sua candidatura sem diluir o discurso que o levou até aqui. O eleitor conservador já está majoritariamente mobilizado, mas uma eleição presidencial exige avançar sobre independentes, eleitores de centro e pessoas que rejeitam Lula sem necessariamente se identificarem com o bolsonarismo. A campanha que conseguir transformar rejeição ao adversário em confiança própria terá vantagem numa disputa em que dois ou três pontos podem decidir o resultado.
Para Lula, o cenário é mais desconfortável porque existe uma diferença básica entre situação e oposição: quem governa precisa responder pelo governo que entregou. A pesquisa não permite afirmar hoje que Flávio Bolsonaro vencerá a eleição, assim como não permite tratar Lula como favorito seguro em um eventual segundo turno. O que setembro já permite afirmar é que a vantagem que o presidente possuía desapareceu em diversas simulações, enquanto a avaliação negativa de sua administração permanece elevada.
A eleição de 2026 entrou, portanto, em uma fase muito diferente daquela imaginada por quem esperava uma candidatura governista protegida pelo cargo e uma direita incapaz de reorganizar seu eleitorado. Flávio Bolsonaro chega ao período decisivo disputando diretamente a liderança do segundo turno em vários levantamentos. Lula chega ao mesmo ponto tentando convencer o eleitor de que quase quatro anos de governo justificam mais um mandato, enquanto uma parcela expressiva do país avalia sua gestão negativamente.
O dado politicamente mais pesado para o Planalto não é Flávio aparecer dois pontos à frente em uma pesquisa ou Lula aparecer dois pontos à frente em outra. É perceber que, depois de quase um mandato inteiro, o presidente da República está entrando na decisão eleitoral sem conseguir abrir distância do candidato que deveria, segundo a narrativa governista, representar uma direita politicamente enfraquecida. As pesquisas de setembro mostram exatamente o contrário: a direita está viva, competitiva e novamente em condições reais de disputar o Palácio do Planalto.
