Uma perícia contratada pela defesa da produtora Karina Ferreira da Gama concluiu que os documentos financeiros examinados sobre o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, não registram entrada de recursos públicos, repasses governamentais ou dinheiro proveniente de mecanismos de incentivo fiscal. O laudo afirma que US$ 13,3 milhões destinados à produção têm origem privada e aparecem em operações rastreáveis na documentação apresentada ao perito.
O trabalho foi assinado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco e contratado pela própria defesa, portanto não corresponde a uma perícia produzida pela Polícia Federal ou determinada judicialmente. Dentro do material analisado, porém, a conclusão é objetiva: não foram encontrados pagamentos públicos diretamente destinados ao filme. Do total identificado, US$ 3,7 milhões aparecem em operações realizadas no Brasil e US$ 9,6 milhões nos Estados Unidos.
A informação atinge um dos pontos mais sensíveis da investigação aberta em torno da produção. A Polícia Federal apura a suspeita de que verbas federais destinadas a entidades presididas por Karina tenham sido desviadas de suas finalidades originais e alcançado despesas relacionadas ao longa. A perícia apresentada pela defesa sustenta uma versão diferente para o caixa formal da produção: o financiamento registrado nos documentos examinados seria privado.
O dinheiro rastreado passa pelo fundo Havengate e chega a Daniel VorcaroO laudo não elimina a presença de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no caminho financeiro de Dark Horse. A própria documentação citada pela Gazeta do Povo aponta o Havengate Development Fund, sediado no Texas, como investidor inicial da produção. Outra investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça no STF, acompanha justamente a ligação entre esse fundo e recursos associados a Vorcaro.
Segundo as informações tornadas públicas, a empresa Entre Investimentos transferiu US$ 12,3 milhões ao Havengate por determinação de Vorcaro. O empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro e proprietário da Entre, firmou acordo de colaboração premiada homologado por Mendonça. A apuração também reúne mensagens nas quais Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro sobre pagamentos ligados ao projeto.
Flávio afirma que os recursos utilizados no filme eram privados, nega irregularidades e sustenta que, quando manteve os diálogos com Vorcaro, desconhecia os fatos posteriormente atribuídos ao banqueiro. Documentos da PF e da PGR divulgados nos últimos dias também colocaram o senador como interlocutor nas negociações de financiamento da produção, enquanto Eduardo Bolsonaro aparece nas apurações envolvendo a gestão de recursos no exterior. A investigação continua aberta.
A discussão sobre Dark Horse, portanto, passou a envolver duas perguntas diferentes. Uma delas trata da procedência do dinheiro registrado como financiamento formal da produção. A perícia particular sustenta que esse dinheiro é privado e identificável. A outra acompanha o caminho percorrido pelos recursos antes de chegarem ao fundo e investiga eventuais irregularidades atribuídas aos agentes envolvidos nessas operações.
Emendas destinadas a entidades ligadas à produtora seguem sob investigação

Segundo o STF, a Polícia Federal trabalha com a hipótese de que recursos destinados ao ICB tenham sido utilizados em contratos fraudulentos e desviados para finalidades diferentes das previstas. A investigação cita despesas com hotéis, restaurantes e serviços de produtora no período das gravações de Dark Horse. A Go Up Entertainment, responsável pelo longa e ligada a Karina, aparece nessa linha investigativa. Mario Frias também é produtor executivo do filme.
Outra entidade presidida por Karina, a Academia Nacional de Cultura (ANC), recebeu R$ 2,6 milhões em emendas destinadas por parlamentares para uma série sobre “heróis nacionais”. ICB, ANC e Go Up aparecem registrados no mesmo endereço, uma circunstância que entrou no radar dos investigadores.
Esses repasses públicos não aparecem, segundo a perícia contratada pela defesa, como entradas no caixa documental analisado de Dark Horse. A PF investiga justamente se houve um caminho indireto entre recursos destinados às entidades e despesas relacionadas à produção. A diferença entre essas duas bases documentais explica por que o novo laudo favorece a argumentação da defesa sem substituir o trabalho de rastreamento conduzido pelas autoridades.
Contrato de Wi-Fi abre outra investigação sobre entidade presidida por Karina
O Instituto Conhecer Brasil também aparece em uma investigação aberta em São Paulo por causa de um contrato originalmente avaliado em R$ 108 milhões com a Prefeitura da capital para instalação de pontos gratuitos de Wi-Fi. Depois de alterações no número de pontos previstos, o valor foi reduzido para R$ 69 milhões.
A apuração identificou que apenas o ICB participou da licitação. O Tribunal de Contas do Município apontou problemas no edital e recomendou que o procedimento não avançasse. Também surgiram suspeitas de sobrepreço e superfaturamento a partir da comparação entre os valores cobrados no contrato e os praticados em outra contratação municipal.
Essa investigação possui origem e objeto próprios. Ela alcança uma entidade comandada pela mesma empresária responsável pela produtora de Dark Horse, mas os valores do contrato municipal não podem ser tratados automaticamente como dinheiro aplicado no filme. A Polícia Civil e os órgãos de controle procuram justamente reconstruir essas movimentações e determinar se houve desvio.
Laudo muda a disputa sobre o financiamento do filme

A perícia acrescenta um documento concreto à defesa de Karina e de envolvidos que afirmam que o financiamento de Dark Horse ocorreu com capital privado. Os US$ 13,3 milhões descritos no laudo aparecem acompanhados de documentação financeira e rastreabilidade, segundo a análise apresentada pela defesa. A conclusão confronta diretamente a ideia de que o orçamento formal do filme tenha sido abastecido por uma transferência identificada de emenda parlamentar ou financiamento público.
A investigação da PF permanece centrada em operações que não dependem exclusivamente dessa contabilidade. O STF autorizou buscas e apreensões no dia 10 de setembro para apurar suspeitas de desvio de emendas e determinou medidas cautelares contra investigados e entidades. A versão oficial divulgada pelo Supremo tribunal federal registra expressamente a hipótese de que dinheiro destinado ao ICB e à ANC tenha sido empregado em outras finalidades, incluindo despesas associadas a Dark Horse.
O novo laudo cria uma distinção documental relevante: o dinheiro registrado pela produção como financiamento aparece como privado, enquanto a PF procura saber se recursos públicos destinados a outras organizações acabaram utilizados indiretamente em gastos ligados ao longa. O resultado das buscas, perícias oficiais e rastreamentos bancários terá de mostrar se existe ligação comprovável entre essas duas estruturas financeiras.
Até aqui, a perícia da defesa encontrou um fluxo privado de US$ 13,3 milhões e não identificou recursos governamentais nos documentos que recebeu. As autoridades mantêm investigações paralelas sobre emendas, entidades ligadas à produtora, operações relacionadas a Vorcaro e contratos públicos. São conjuntos de provas diferentes, e a definição sobre eventual responsabilidade criminal dependerá do que for produzido nos inquéritos e submetido ao Judiciári
