Depois que o Ministro André Mendonça tornou público o relatório da Polícia Federal com mensagens envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, a crise mudou de direção. Moraes passou à ofensiva contra o colega,e ele nem disfarçou o que eles estava fazendo, reuniu acusações de um suposto abuso de autoridade e crime de responsabilidade tudo que só faz sentindo na cabeça dele,e tentou levar o caso para o inquérito das fake news, sim agora até mesmo o André Mendonça quase foi parar no interminável inquérito das Fake News,e no meio dessa escalada, uma reunião de três horas com Davi Alcolumbre e a posterior articulação de um possível impeachment de Mendonça colocaram também o Senado dentro de uma disputa que já ultrapassou os limites internos do Supremo.
A crise aberta no Supremo Tribunal Federal pelo caso Banco Master já não pode ser compreendida apenas pelas mensagens encontradas no telefone de Daniel Vorcaro. Em poucos dias, o foco saiu das relações reveladas pelo material da Polícia Federal e passou a envolver uma disputa direta entre dois ministros da Corte, a Presidência do STF, a Procuradoria-Geral da República e o presidente do Senado.
A ordem dos acontecimentos ajuda a entender por quê. A Polícia Federal entregou a André Mendonça, em 27 de agosto, um relatório produzido a partir do celular de Vorcaro. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo do material. Entre os documentos estavam mensagens atribuídas ou relacionadas a Alexandre de Moraes, referências a encontros com o banqueiro e informações sobre o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A própria PF identificou em metadados que Moraes havia feito alterações em uma minuta desse contrato antes da assinatura.
O relatório não comprova que todos os pedidos feitos por Vorcaro foram atendidos e, em parte das conversas, não foi possível recuperar as respostas do interlocutor. Moraes também contestou a associação de seu nome a mensagens anteriormente divulgadas, enquanto o escritório de sua esposa afirmou que ele foi consultado apenas para verificar eventuais impedimentos jurídicos à contratação. Essas ressalvas são relevantes. Também é relevante, porém, que o material policial trouxe elementos suficientes para colocar a relação entre um ministro do Supremo e o controlador de um banco investigado sob uma pressão pública que já não poderia ser respondida apenas com silêncio institucional.
Foi nesse ponto que a reação deixou de mirar apenas o conteúdo das mensagens e passou a mirar também quem as colocou sob os holofotes.
O relatório atingiu Moraes em um terreno particularmente delicado

O material tornado público por Mendonça contém mais do que referências sociais entre Moraes e Vorcaro. A Polícia Federal encontrou mensagens nas quais o banqueiro procurava informações enquanto o cerco das autoridades aumentava. Pouco antes de sua prisão, Vorcaro perguntou ao interlocutor identificado pela investigação como Moraes se havia risco de ser preso e se deveria estar fora do país. Em outros momentos, surgem referências a possíveis contatos com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Há ainda registros indicando pelo menos seis encontros mencionados nas mensagens e a descoberta de que Moraes realizou edições na minuta do contrato entre o Master e o escritório de sua esposa. A existência dessas informações não equivale a uma condenação, nem demonstra por si só que tenha havido favorecimento ilegal. Ela produz, contudo, uma pergunta legítima sobre os padrões de transparência e distanciamento que deveriam valer para integrantes da mais alta Corte do país.
Esse ponto é especialmente desconfortável para Moraes porque sua atuação nos últimos anos foi marcada justamente por uma interpretação ampla da necessidade de investigar relações, redes de influência, articulações e possíveis interferências sobre instituições. Quando elementos semelhantes aparecem próximos ao próprio ministro, a exigência de apuração não pode mudar simplesmente porque mudou o personagem submetido ao escrutínio.
Uma Corte que reivindicou poderes extraordinários em nome da defesa das instituições dificilmente pode sustentar que questionamentos envolvendo um de seus integrantes devam ser tratados como uma ameaça à própria instituição. A credibilidade do STF depende da capacidade de aplicar internamente a mesma exigência de responsabilidade que cobra de quem está fora dele.
Depois das mensagens, Moraes passou ao ataque contra Mendonça
As dúvidas sobre a maneira como André Mendonça conduziu parte da investigação coincidentemente passaram a existir depois do vazamento das mensagens do Vorcaro e Moraes. A PGR é claro contestou o procedimento utilizado pelo ministro, o mais curioso é que o PGR também foi supostamente citado nas mensagens ,mas é claro que isso é apenas mais uma coincidência,Mas a discução de como Moraes atuava na condução de certos processos ficaram sempre na esfera da especulação ,mas agora que o relator é outro há uma discussão jurídica real sobre os limites da atuação do relator e sobre a necessidade de submissão de determinadas providências ao plenário do Supremo tribunal Federal
E a resposta de Moraes, foi muito além de levantar essa controvérsia processual.
No dia 3 de setembro, o ministro utilizou o interminável inquérito das fake news, aberto em 2019 e relatado por ele próprio, para encaminhar ao presidente do STF, Edson Fachin, acusações contra André Mendonça. Moraes apontou supostos indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade e sustentou que o colega teria direcionado investigações por motivações pessoais e políticas.
A peculiaridade é difícil de ignorar. Mendonça havia tornado público um relatório policial que produziu enorme desgaste para Moraes. Poucos dias depois, o próprio Moraes recorria a um inquérito que relata para provocar uma investigação capaz de produzir consequências administrativas e até políticas contra Mendonça.
A situação tornou-se ainda mais delicada porque parte da ofensiva contra Mendonça se apoiou em um relatório interno de inteligência da Polícia Federal cuja utilização formal foi questionada. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o documento não tinha assinatura de delegado, não possuía valor probatório e trabalhava com hipóteses de baixo grau de confiança e relatos cuja origem não estava identificada. Mesmo assim, elementos desse material foram usados para sustentar acusações graves contra o ministro.
Entre uma coisa e outra, houve uma reunião de três horas com Alcolumbre

A entrada de Davi Alcolumbre na sequência torna o episódio politicamente mais estranho
Na quarta-feira, 2 de setembro, um dia antes da ofensiva de Moraes contra Mendonça se tornar pública, Moraes passou cerca de três horas reunido com o presidente do Senado na residência de Alcolumbre, no Lago Sul, em Brasília. A informação foi publicada pela coluna de Malu Gaspar, de O Globo, e confirmada por três fontes, segundo veículos que reproduziram a apuração.
Uma reunião entre um ministro do STF e o presidente do Senado não constitui irregularidade. O momento e os personagens envolvidos, entretanto, impedem que o encontro seja tratado como um detalhe sem importância.
Alcolumbre é justamente a autoridade que controla politicamente o andamento dos pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. E, naquele momento, enfrentava pressão crescente para analisar novos pedidos contra Moraes em razão das revelações do caso Master. Apesar disso, aliados do presidente do Senado já indicavam que ele não pretendia fazer os processos avançarem e preferia aguardar uma solução dentro do próprio STF.
Há outra coincidência institucional incômoda: o nome de Alcolumbre aparece no material utilizado por Moraes contra Mendonça. Segundo os relatórios apresentados, o presidente do Senado seria um possível alvo de direcionamento das investigações conduzidas pelo ministro. A Folha mostrou que essa hipótese estava entre as alegações utilizadas na ofensiva contra Mendonça, embora o documento tivesse baixo grau de confiança e nenhuma força probatória.
Assim, Moraes se reuniu por três horas com uma autoridade que aparecia como possível vítima das condutas que ele atribuiria a Mendonça no dia seguinte. A mesma autoridade controla a porta de entrada de qualquer processo de impeachment contra Moraes.
Pode não ter havido qualquer negociação sobre o assunto. Não há prova pública de um acordo. A aparência institucional, entretanto, é ruim por si só, principalmente para uma Corte que depende muito mais de confiança pública do que de mecanismos externos de fiscalização.
E então o impeachment mudou de direção
Enquanto pedidos contra Moraes permanecem sem perspectiva de avanço, uma nova possibilidade começou a circular no Senado: o impeachment de André Mendonça.
sim, você não ouviu errado, o único ministros que parece querer dar uma resposta minimamente descente pra população sobre dos os escândalos ,seja do master ou do INSS ,agora passou a ser alvo de um possível impeachment
Reportagem de Mônica Bergamo mostrou nesta sexta-feira, 4 de setembro, que senadores articulam a apresentação de um pedido contra Mendonça utilizando justamente como base as acusações levantadas por Moraes. Segundo a apuração, a possibilidade já foi discutida com Alcolumbre e é descrita por parlamentares próximos ao presidente do Senado como uma forma de “contrafogo” diante da crise. Interlocutores chegaram a defender que a ameaça poderia cumprir sua função política sem necessariamente ser levada até uma votação.
Outra apuração, atribuída à coluna de Malu Gaspar, afirma que Alcolumbre já dizia a interlocutores que, se algum ministro do Supremo devesse sofrer impeachment, seria Mendonça. A informação deve ser tratada como relato de bastidores, não como declaração pública do presidente do Senado, mas ajuda a compreender por que a discussão ganhou força justamente agora.
Aqui a contradição ganha dimensão política.
Moraes acumulou dezenas de pedidos de impeachment ao longo dos últimos anos, e novos requerimentos surgiram após a divulgação das mensagens envolvendo Vorcaro. Senadores foram à tribuna defender seu afastamento ainda em 1º de setembro. Alcolumbre, porém, continuou sem disposição para abrir o processo.
Quando o alvo passa a ser Mendonça, o cenário aparentemente se torna mais flexível. Segundo a Folha, aliados de Alcolumbre não apenas discutem o impeachment como enxergam utilidade na própria ameaça. A função descrita não seria necessariamente julgar uma eventual conduta ilícita de maneira imparcial, mas produzir pressão dentro da disputa em curso.
Para um Senado que já sofre críticas por transformar o impeachment de ministros do STF numa decisão dependente quase exclusivamente da vontade política de seu presidente, a situação é particularmente difícil de justificar. A Lei 1.079/1950 prevê ao Senado papel central no julgamento de crimes de responsabilidade cometidos por ministros da Corte. Esse instrumento perde legitimidade quando a percepção passa a ser a de que sua abertura varia conforme amizade, conveniência ou alinhamento entre os personagens envolvidos.
Fachin colocou um limite importante na ofensiva

Edson Fachin acabou interferindo diretamente nesse desenho.
Nesta sexta-feira, o presidente do STF retirou o pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news e determinou que o material fosse anexado a outro procedimento, sob sua própria relatoria. Fachin deu prazo para manifestação da Procuradoria-Geral da República e também para a defesa de Mendonça.
A decisão não absolve Mendonça das acusações nem encerra o debate sobre possíveis irregularidades em sua atuação. Ela produz, contudo, um efeito institucional importante: Moraes deixa de controlar, dentro do inquérito que relata, uma apuração voltada contra o colega com quem está em conflito aberto.
É uma correção relevante porque a concentração de funções se tornou uma das principais fontes de desgaste do próprio inquérito das fake news. Iniciado há sete anos, o procedimento acumulou críticas justamente pela amplitude de seu objeto e pela posição excepcional ocupada pelo relator. Usá-lo agora para atingir outro ministro do Supremo, imediatamente depois de uma investigação que alcançou o próprio relator, empurraria esse modelo para uma situação ainda mais difícil de defender.
Depois da ofensiva de Moraes, Mendonça procurou Fachin e pediu verbalmente o afastamento cautelar do colega. Segundo reportagens da Band e do Jornal do Commercio, a proposta seria que Fachin adotasse uma decisão temporária, submetendo posteriormente a questão ao plenário.
Esse detalhe também corrige uma confusão importante sobre a cronologia. Antes da ofensiva de Moraes, Mendonça havia pedido que o plenário discutisse a possibilidade de investigação do colega. O pedido específico de afastamento veio depois que Moraes tentou colocá-lo sob investigação no inquérito das fake news.
A escalada, portanto, tornou-se recíproca. A diferença é que ela começou depois que fatos relativos a Moraes e Vorcaro chegaram ao conhecimento público e a reação institucional passou rapidamente a concentrar atenção na conduta de quem revelou o material.
A pergunta que não pode desaparecer atrás da guerra entre os ministros
André Mendonça deve responder por eventuais excessos que tenha cometido. Se ultrapassou suas competências, determinou diligências ilegais ou utilizou uma investigação para fins pessoais ou políticos, Pois é parece que a lei só funciona pra uma lado, enquanto Moraes acumula denuncias de eventuais excessos e nunca é investigado, Mendonca por sua vez agora poderá ser alvo de uma investigação
A pior saída possível para o Supremo seria transformar a discussão processual sobre Mendonça numa maneira de fazer desaparecer o conteúdo que desencadeou toda a crise. Nada do que se descubra sobre a atuação do relator muda o fato de que existem mensagens, encontros mencionados pela investigação, contratos milionários e documentos encontrados no telefone de Daniel Vorcaro que precisam ser explicados.
Nem a eventual irregularidade de uma investigação torna automaticamente inocentes as pessoas investigadas, nem a gravidade das suspeitas autoriza atropelar regras processuais. As duas coisas podem ser examinadas ao mesmo tempo. Uma instituição realmente comprometida com o devido processo não precisa escolher qual delas prefere investigar, e aqui eu estou falando pelo principio legal.
O STF chegou a esse impasse depois de anos de expansão de sua presença sobre a política. A Corte assumiu papel central em investigações, plataformas digitais, eleições, conflitos entre Poderes e episódios de grande repercussão nacional. Agora, quando a crise entrou por suas próprias portas, aparece a pergunta que durante muito tempo foi feita a respeito dos demais atores políticos: quem controla quem controla?
A sequência dos últimos quatro dias não oferece uma resposta tranquilizadora. Um relatório envolvendo Moraes é tornado público. Moraes se reúne durante horas com o presidente do Senado, justamente a autoridade que decide sobre processos de impeachment contra ministros do STF. No dia seguinte, parte para uma ofensiva contra Mendonça usando um inquérito sob sua própria relatoria. Logo depois, aliados no Senado começam a discutir um impeachment de Mendonça como instrumento de “contrafogo”. Fachin precisa intervir e retirar o caso das mãos de Moraes.
Cada episódio pode ter uma explicação isolada. Vistos em conjunto, revelam uma arquitetura de poder em que as fronteiras entre investigação, reação institucional e articulação política ficaram perigosamente estreitas.
Alexandre de Moraes tem direito à presunção de inocência e à apuração regular das acusações que o atingem. O que ele não pode ter é um padrão institucional diferente daquele aplicado às pessoas que suas próprias decisões colocaram sob investigação ao longo dos últimos anos.
Se as mensagens de Daniel Vorcaro não provam irregularidade, que sejam investigadas até que isso fique esclarecido. Se André Mendonça abusou de suas atribuições, que responda por isso em procedimento independente. Se houve qualquer conduta imprópria de Moraes, a mesma regra precisa valer.
O que seria incompatível com a autoridade de uma Suprema Corte é permitir que uma investigação sobre um ministro termine convertida principalmente numa investigação contra quem expôs os fatos que colocaram esse ministro sob escrutínio. Quando a reação ao mensageiro começa a ocupar mais espaço do que o conteúdo da mensagem, a crise já deixou de pertencer a duas pessoas. Ela passa a ser da instituição inteira.
