O resultado das eleições de 2026 produziu uma mudança que vai muito além da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Independentemente de quem vencer o segundo turno, o próximo presidente encontrará um Congresso significativamente mais inclinado à direita e com o Partido Liberal ocupando uma posição que nenhuma outra legenda conseguiu alcançar nas duas Casas. e na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares e terá a maior bancada a partir de fevereiro de 2027.No Senado, o avanço foi ainda mais expressivo: o partido conquistou 19 das 54 vagas que estavam em disputa e deverá começar a próxima legislatura com 28 senadores. Se essa composição se confirmar até a posse, será a maior bancada partidária no início de uma legislatura no Senado desde a Constituição de 1988.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da mudança. Na Câmara, os 121 deputados do PL representarão 23,6% das 513 cadeiras. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, aparece como segunda força, com 88 deputados, dos quais 70 são petistas. União e PP, reunidos na federação União Progressista, conquistaram 87 vagas , e isso não significa que o PL terá maioria para aprovar sozinho seus projetos. Está longe disso. O que mudou é sua posição na negociação política: a sigla entra em 2027 como a maior bancada das duas Casas e com capacidade muito maior de disputar a agenda, presidências de comissões e o próprio comando do Congresso.
O avanço no Senado foi ainda maior
É no Senado que o resultado eleitoral produz algumas das consequências mais importantes, neste ano foram renovadas 54 das 81 cadeiras da Casa, correspondentes a dois terços do Senado. O PL conquistou 19 delas. Somados aos parlamentares que ainda possuem mandato, a projeção é de uma bancada com 28 integrantes em 2027. PT e MDB aparecem bem atrás, com projeções de nove e oito senadores, respectivamente, o desempenho do PL também estabeleceu um marco. Nenhuma legenda havia começado uma legislatura com uma bancada tão numerosa no Senado desde 1988. O recorde anterior pertencia ao então PMDB, que iniciou 1999 com 27 senadores.
A mudança ganha ainda mais peso pelas atribuições exclusivas do Senado. É a Casa responsável por analisar indicações para o Supremo Tribunal Federal, comandar processos de impeachment contra ministros da Corte e sabatinar nomes indicados para uma série de órgãos e instituições, o PL não terá sozinho os 41 votos necessários para formar maioria absoluta no Senado, muito menos os 54 votos exigidos para uma eventual condenação deministro do STF em processo de impeachment. Mas uma bancada de 28 senadores transforma o partido no principal polo para a construção dessas maiorias ,para Lula, caso consiga reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro no segundo turno e conquiste um novo mandato, essa composição criaria uma dificuldade que não esteve presente com a mesma intensidade no início de seu atual governo.
Câmara também se deslocou para a direita
O movimento não ficou restrito ao Senado e o levantamento publicado pela Folha de S.Paulo aponta que 59% da Câmara eleita pode ser classificada como de direita, enquanto a esquerda representa 24% e o centro, 17%. Ao mesmo tempo, a Casa ficará menos fragmentada, concentrando poder em um número menor de grandes forças políticas ,o PL sozinho terá 121 deputados. Na eleição anterior, a legenda havia conquistado 97 cadeiras, segundo a Agência Câmara, o que representa um salto de 24 parlamentares na comparação eleitoral.
Essa concentração tende a aumentar o preço político das negociações do Executivo. Um Congresso menos fragmentado não é necessariamente um Congresso mais fácil para o presidente. Quando uma legenda de oposição possui uma bancada muito grande, ela ganha mais instrumentos para bloquear propostas, negociar votações e exigir espaço na definição da pauta ,esse cenário é especialmente relevante caso Lula seja reeleito , em vez de começar 2027 diante de um Congresso no qual o governo possa tentar construir maiorias a partir de várias bancadas médias, o petista poderá enfrentar um bloco de direita fortalecido eleitoralmente e comandado por um partido diretamente adversário ao seu projeto político.
PL entra na disputa pelo comando das duas Casas

O resultado das urnas também colocou pressão sobre as atuais cúpulas da Câmara e do Senado ,Hugo Motta, do Republicanos, preside a Câmara, enquanto Davi Alcolumbre, do União Brasil, comanda o Senado. Ambos pretendem manter influência sobre suas respectivas Casas, mas a nova composição tornou a disputa mais complicada. A cobertura política publicada após a eleição já aponta que o avanço do PL ameaça os planos de recondução dos dois presidentes, antes mesmo da eleição, aliados de Flávio Bolsonaro trabalhavam com alternativas para o comando do Senado. Entre os nomes mencionados estavam Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, e Tereza Cristina, do PP de Mato Grosso do Sul. Marinho é considerado um nome mais identificado com o núcleo bolsonarista, enquanto Tereza Cristina teria maior capacidade de dialogar com setores do centro.
Agora, com 28 senadores projetados para o PL, essa discussão ganha outra dimensão, presidir o Senado significa controlar a pauta da Casa e decidir, entre outras coisas, se determinados pedidos contra ministros do Supremo terão ou não andamento. Durante a atual legislatura, Alcolumbre manteve represados pedidos de impeachment contra integrantes da Corte ,na Câmara, a situação também mudou. Motta chega à disputa de 2027 diante de uma bancada do PL muito maior e de um partido que acumulou divergências com sua gestão, principalmente em pautas defendidas pela direita ,
Uma eventual vitória de Lula não encerraria a disputa das urnas
O segundo turno presidencial decidirá quem ocupará o Palácio do Planalto, mas parte relevante da estrutura de poder para os próximos quatro anos já foi definida, se Flávio Bolsonaro vencer, encontrará um Congresso no qual seu partido será a maior força tanto na Câmara quanto no Senado. Ainda precisará negociar com outras legendas, mas partirá de uma base parlamentar consideravelmente maior, e para Lula, o cenário seria inverso, uma eventual vitória do petista lhe garantiria a Presidência, mas não apagaria o recado produzido pela eleição legislativa. Seu governo começaria em fevereiro diante de um Senado no qual o PL poderá ter mais de três vezes o número de parlamentares do PT e de uma Câmara em que a maior bancada também pertence ao principal partido de oposição.
Isso pode atingir diretamente a capacidade do Planalto de aprovar projetos que dependam de maiorias mais amplas, especialmente propostas de emenda à Constituição. Também aumenta a importância das negociações sobre orçamento, emendas parlamentares, comissões e cargos estratégicos das duas Casas, o novo Congresso não torna um eventual governo Lula inviável. Presidentes brasileiros historicamente constroem coalizões com partidos que não necessariamente pertencem ao mesmo campo ideológico. Mas os números indicam que o custo político dessa construção poderá ser significativamente maior.
As urnas mudaram o centro de gravidade em Brasília
A principal consequência das eleições legislativas de 2026 talvez seja justamente essa: a disputa pelo poder não terminou na escolha dos deputados e senadores,ela apenas mudou de lugar, o PL deixou as urnas como a maior bancada da Câmara, caminha para possuir a maior bancada do Senado e terá peso decisivo nas negociações para definir quem comandará as duas Casas a partir de fevereiro, na prática, o resultado dá à direita instrumentos institucionais que vão muito além do número de cadeiras. Presidências de comissões, controle de pautas, análise de indicações e capacidade de formar maiorias passam a fazer parte de uma disputa que começará imediatamente após o segundo turno presidencial.
Se Flávio Bolsonaro chegar ao Planalto, o novo Congresso poderá funcionar como uma base importante para sua agenda, embora alianças continuem indispensáveis. Se Lula vencer, terá pela frente um Legislativo muito diferente daquele encontrado no início de 2023: menos fragmentado, mais concentrado à direita e com o principal partido de oposição ocupando o centro do tabuleiro, o segundo turno decidirá quem governará o país. As eleições de domingo, porém, já decidiram que o Congresso de 2027 terá força suficiente para condicionar profundamente a maneira como esse governo poderá governar.
