Empresária afirma ter presenciado encontros frequentes entre o filho do presidente e integrantes do governo, revela pedidos de ajuda para conseguir agendas no Planalto e diz que não pretende poupar ninguém em eventual colaboração com a Justiça.
A entrevista de Roberta Luchsinger à CNN Brasil, exibida na noite de sábado (17), trouxe declarações que atingem diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Investigada por suspeitas de tráfico de influência, a empresária resolveu falar publicamente depois de ser chamada de pilantra pelo petista ,ela não limitou sua resposta às acusações que enfrenta, Roberta passou a descrever reuniões com ministros, contatos empresariais e pedidos de favores que, segundo ela, aconteciam dentro do círculo próximo ao governo ,o depoimento chamou atenção principalmente pela relação de amizade que Roberta mantinha com Lulinha. Os dois conviveram durante anos, dividiram ambientes familiares e viajaram juntos. Agora, a antiga aliada acusa Lula de mentir sobre os encontros do filho com autoridades e afirma que pretende revelar à Justiça informações que ainda não aparecem nas mensagens recolhidas pelos investigadores ,durante a conversa com os jornalistas Iuri Pitta e Débora Bergamasco, a entrevistada também abordou sua ligação com Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, e mencionou possíveis interesses empresariais envolvendo uma construtora portuguesa. Embora tenha negado participação em irregularidades, reconheceu relações que ajudam a compreender por que seu nome passou a aparecer nas investigações.
Roberta diz que Lulinha se reunia semanalmente com ministros
Um dos momentos mais contundentes ocorreu quando os jornalistas perguntaram sobre a declaração de Lula de que seu filho não havia se reunido com ministros do governo federal. A resposta de Roberta foi imediata: afirmou ter presenciado esses encontros inúmeras vezes e acrescentou que eles aconteciam semanalmente ,a empresária citou Camilo Santana, ex-ministro da Educação, e declarou que Fábio Luís chegou a viajar para a residência dele no Ceará. Também afirmou que o filho do presidente esteve presente em ocasiões nas quais eram discutidas políticas públicas, especialmente assuntos relacionados à regulamentação do canabidiol, ao detalhar essas conversas, porém, fez uma distinção. Disse que Lulinha demonstrava interesse pelo setor e acompanhava sua rotina, mas reconheceu não saber informar se ele discutiu diretamente o tema com algum ministro na presença dela. Sobre encontros dos quais não participou, admitiu desconhecer o conteúdo.
A declaração sobre a frequência das reuniões contrasta com a versão atribuída ao presidente. Se o filho de Lula realmente mantinha contato semanal com integrantes do primeiro escalão, a negativa pública merece explicações mais precisas. O registro das agendas e os depoimentos dos participantes podem esclarecer quais encontros ocorreram e o que foi tratado. Camilo Santana, citado na entrevista, negou ter mantido reuniões com Fábio Luís para discutir negócios ou assuntos do governo. A divergência entre o relato da empresária e a manifestação do ex-ministro permanece sem esclarecimento público definitivo, outra revelação envolveu o funcionamento das agendas presidenciais. Roberta afirmou que integrantes do governo a procuravam para pedir ajuda, discutir projetos e facilitar contatos com Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.
Segundo ela, alguns ministros enfrentavam dificuldades para conseguir determinados compromissos e recorriam à sua proximidade com Lulinha. Entre os nomes mencionados estavam Leonardo Barchini, da Educação, e Frederico de Siqueira Filho, das Comunicações, a entrevistada explicou que essas autoridades possuíam acesso institucional ao presidente, mas, diante das dificuldades de comunicação, buscavam auxílio informal. Descreveu a situação como resultado de amizades e de uma maneira pouco organizada de encaminhar solicitações, Roberta ainda não apresentou provas de que essas aproximações tenham produzido decisões ilegais, mas descreveu uma dinâmica na qual relações pessoais poderiam facilitar o andamento de demandas administrativas, e alegou que em um eventual investigação formal ela poderia participar de uma delação premiada
Os ministério da Educação e o ministério das Comunicações contestaram partes das declarações. A Educação negou tratativas envolvendo a pasta, a empresária e Lulinha, enquanto as Comunicações afirmou que os pedidos de agenda eram encaminhados institucionalmente ,há também a relação financeira com Marcola. Roberta admitiu ter emprestado dinheiro ao ex-chefe de gabinete, alegando que o ajudou por amizade e sem receber contrapartida. Durante a entrevista, foi questionada sobre pagamentos de boletos e presentes mencionados nas investigações. Afirmou que os esclarecimentos já foram prestados às autoridades e que não poderia divulgar detalhes protegidos por decisão judicial, a combinação entre auxílio financeiro e pedidos de intermediação torna necessário examinar as circunstâncias desses contatos. A empresária nega ter obtido vantagens e sustenta que nunca manteve contratos com o governo federal.
Careca do INSS e os negócios envolvendo o filho de Lula

Ao explicar a apresentação, disse que Antônio era seu cliente e Fábio Luís, seu amigo. Depois que os dois trocaram contatos, afirmou não ter acompanhado eventuais negócios realizados entre eles, o depoimento não esclarece se a aproximação produziu benefícios empresariais. Também não comprova a existência de uma sociedade oculta, suspeita examinada nas investigações e negada pelos envolvidos. O vínculo reconhecido pela própria entrevistada, entretanto, fornece um ponto concreto para a apuração policial, outro assunto abordado foi a construtora ECB, integrante do grupo português Mota-Engil. Roberta afirmou conhecer uma história sobre a participação de Lulinha em contatos relacionados à empresa e mencionou Amauri Rodrigues Pinha, apontado como vizinho e amigo do filho do presidente, a empresária citou contratos que, segundo seu relato, somariam aproximadamente R$ 2 bilhões. Reconheceu, contudo, que não participou diretamente das tratativas. O valor mencionado e a alegação de intermediação não demonstram, isoladamente, fraude ou favorecimento. Procurado pela CNN, o grupo empresarial não havia respondido até a publicação da reportagem.
A entrevista ganhou um tom ainda mais duro quando Roberta anunciou que pretende buscar um acordo de delação premiada. Afirmou que não deseja assumir sozinha as consequências das investigações e declarou estar disposta a fornecer detalhes sobre episódios que presenciou, inclusive envolvendo pessoas próximas ao presidente ,segundo ela, nem todas as informações relevantes aparecem nas conversas de WhatsApp já acessadas pelas autoridades. Algumas dependeriam de explicações sobre encontros, diálogos e situações vivenciadas pessoalmente, a disposição anunciada não significa que exista uma colaboração formalizada. Um eventual acordo dependerá dos procedimentos legais e da avaliação das informações oferecidas. Até agora, as declarações públicas não constituem prova de participação de Lula ou de seu filho em crimes.
Roberta também acusou Fábio Luís de covardia por não defendê-la após os ataques feitos pelo pai. Disse que a convivência entre ambos era intensa e que não compreende como o presidente poderia desconhecer sua existência ,a antiga apoiadora do PT demonstrou indignação por ter sido chamada de pilantra enquanto, segundo sua versão, outras pessoas que frequentavam sua casa e solicitavam ajuda permaneceram protegidas das críticas presidencial ,ela relatou ainda ameaças contra si e suas duas filhas. Atribuiu a Lula responsabilidade política pela exposição que afirma sofrer, mas não apresentou comprovação de que ele tenha ordenado ou participado dessas ameaças. Parlamentares da oposição passaram a pedir medidas de proteção após a divulgação da entrevista.
Lula nega acusações e questiona divulgação às vésperas da eleição
A reação de Lula veio por meio de nota ele afirmou desconhecer inteiramente os fatos relatados por Roberta, negou ter mantido interlocução com ela e sustentou que jamais recebeu suas demandas. O Planalto também ressaltou que não existem contratos federais com a empresária ,a Presidência questionou o momento escolhido para a divulgação das declarações, a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial. Na avaliação de Lula, acusações sem comprovação podem ser utilizadas para interferir na disputa eleitoral, a defesa de Lulinha também negou irregularidades e afirmou que os relacionamentos dele com autoridades sempre tiveram natureza pessoal. Os advogados sustentaram que as declarações recentes de Roberta são incompatíveis com seu depoimento às autoridades e que demonstrarão a inocência do cliente nos autos.
As negativas não encerram a controvérsia sobre os encontros mencionados. A empresária apresentou uma versão detalhada da convivência com Fábio Luís e afirmou que ministros recorriam a contatos informais para encaminhar assuntos ao Planalto. Os envolvidos contestam as suspeitas de favorecimento e parte dos episódios descritos, o contraste entre as declarações públicas de Lula e o relato de alguém que frequentava o círculo pessoal de seu filho tornou-se o principal ponto da entrevista. Roberta diz ter presenciado reuniões frequentes, menciona autoridades e promete fornecer informações adicionais à Justiça. O presidente nega conhecimento das tratativas e questiona a credibilidade das acusações. para o governo, a dificuldade está em responder aos episódios concretos sem reduzir toda a discussão à disputa eleitoral. A existência dos encontros, a finalidade dos contatos e a eventual participação de intermediários em decisões administrativas são questões que podem ser examinadas por meio de registros e depoimentos. Roberta encerrou sua participação na CNN sem apresentar provas públicas de crimes cometidos por Lula ou Lulinha. Mas deixou uma acusação política direta contra o presidente: a de que ele conhece menos — ou admite conhecer menos — sobre a atuação do próprio filho do que uma pessoa que conviveu durante anos com a família.
