O governo Lula agora corre para combater um mercado que ajudou a colocar de pé. Em 2023, foi o próprio Executivo que levou ao Congresso o projeto que reformulou as regras das apostas.Lula poderia ter recorrido ao veto sobre o texto aprovado, mas escolheu sancioná-lo com vetos pontuais. Nos anos seguintes, seu governo estruturou a regulamentação, autorizou operadores e viu as bets avançarem sobre o futebol, a publicidade e o bolso de milhões de brasileiros. Agora, a poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, o Planalto prepara uma mudança radical de direção: quer proibir o setor e não é a primeira vez que uma decisão sancionada por Lula muda de destino quando o calendário eleitoral aperta. Em 2024, o presidente sancionou a lei que estabeleceu a cobrança federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”. Lula tinha poder para vetar o dispositivo e não o fez, apesar de ter vetado outros trechos da mesma legislação. Dois anos depois, seu governo trabalhou para retirar justamente a cobrança que havia aceitado. O fim do imposto foi sancionado em 10 de setembro de 2026, apenas 24 dias antes do primeiro turno.
O próprio Lula admitiu durante a sanção que havia concordado com a taxação em 2024, embora tenha afirmado que o fez “a contragosto”, em um acordo mediado pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira. A cobrança entrou em vigor em agosto daquele ano e, durante o período em que permaneceu valendo, a Receita Federal arrecadou R$ 4,5 bilhões com o imposto de importação sobre compras de até US$ 50. Em maio de 2026, uma medida provisória do governo suspendeu a cobrança; em setembro, o Congresso aprovou definitivamente seu fim, as Bets e compras internacionais são assuntos diferentes, mas a cronologia colocou os dois no mesmo debate político. Medidas anteriormente aceitas, sancionadas ou regulamentadas pelo governo passaram por uma mudança de direção justamente em 2026. No caso das apostas, essa virada é ainda mais profunda: o governo não discute apenas aumentar impostos ou endurecer regras, mas uma medida capaz de retirar do mercado empresas que receberam autorização para operar sob normas estabelecidas pela própria União.
Lula sancionou a regulamentação e agora quer derrubar o mercado

Na quarta-feira, 23 de setembro, o presidente afirmou publicamente que havia decidido acabar com as bets. Segundo ele, os clubes teriam de aprender a administrar suas contas sem depender desse dinheiro. A declaração ocorreu enquanto o governo preparava uma medida provisória sobre o setor. Nesta sexta-feira, 25, interlocutores ouvidos pela CNN afirmaram que o Planalto trabalhava para oficializar a proibição, restando negociações sobre os efeitos da decisão no futebol, a discussão interna chegou a considerar uma alternativa menos abrangente, que atingiria principalmente jogos de cassino online, como o popularmente conhecido com o " jogoTigrinho" preservando apostas esportivas. A versão mais dura discutida pelo governo, entretanto, prevê atingir as próprias casas de apostas, o que mudaria completamente a situação das empresas autorizadas e de todos os setores que passaram a depender financeiramente delas.
Futebol se tornou dependente do dinheiro das bets
Nenhum setor expõe melhor o tamanho alcançado pelas casas de apostas do que o futebol brasileiro ,atualmente, 14 dos 20 clubes da Série A exibem marcas de empresas de apostas no espaço mais valioso de suas camisas, segundo levantamento publicado nesta semana. Somente em 2025, as bets despejaram mais de R$ 1 bilhão em contratos de patrocínio com equipes da elite nacional. O próprio Campeonato Brasileiro carrega comercialmente o nome de uma plataforma de apostas e alguns contratos mostram como essa relação cresceu, O Corinthians mesmo recebe cerca de R$ 150 milhões por ano da Esportes da Sorte. O São Paulo tem contrato com a Superbet que prevê aproximadamente R$ 80 milhões em 2026. No Fluminense, o acordo com a mesma empresa parte de R$ 53 milhões e pode alcançar R$ 86 milhões.
No Flamengo, a Betano paga aproximadamente R$ 268 milhões anuais, enquanto o Palmeiras recebeu R$ 120 milhões da Sportingbet em 2025, dos quais R$ 100 milhões eram fixos. O Grêmio, depois de passar meses sem patrocinador máster, anunciou nesta semana um contrato de três anos com a Pitaco no valor de R$ 46 milhões anuais, em poucos anos, portanto, as casas de apostas deixaram de ocupar espaços secundários e passaram para a parte mais nobre das camisas dos principais clubes brasileiros ,esse avanço ocorreu enquanto o setor estava submetido à regulamentação federal implantada após a legislação sancionada em 2023. Agora, os mesmos clubes que organizaram seus orçamentos considerando essas receitas precisam se preparar para a possibilidade de os contratos desaparecerem.
Bets já avisam clubes sobre possível rompimento
A possibilidade de proibição deixou de ser apenas uma discussão política e começou a produzir consequências comerciais antes mesmo da publicação da medida e as casas de apostas começaram a notificar clubes das Séries A e B sobre a possibilidade de rescisão imediata dos contratos caso o governo impeça suas operações. Corinthians, São Paulo e Fluminense estão entre as equipes que receberam alertas, as empresas também se preparam para uma disputa judicial. Executivos do setor afirmam que recorrerão à Justiça caso a medida provisória inviabilize as operações autorizadas pelo governo, questionando a mudança das regras depois da estruturação de negócios e contratos sob o marco regulatório vigente e os clubes não gostaram e reagiram, o Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco e Cruzeiro estiveram entre as equipes que divulgaram manifestação defendendo a manutenção do mercado regulado. Federações de São Paulo e Rio de Janeiro também participaram do movimento. Os dirigentes argumentam que a retirada das empresas não acabaria com as apostas, mas poderia deslocar jogadores para plataformas ilegais e retirar uma das maiores fontes recentes de patrocínio do esporte a frase mais forte do manifesto foi a afirmação dos clubes de que, se o mercado regulado acabar, “o futebol é que acaba”. Trata-se, evidentemente, da posição das entidades envolvidas e diretamente afetadas financeiramente pela possível proibição, mas o tamanho dos contratos ajuda a explicar a reação.
Governo já discute como socorrer os clubes
A dimensão do problema chegou ao próprio Planalto porque enquanto prepara a proibição, o governo discute maneiras de reduzir o impacto financeiro sobre os clubes. Uma das alternativas é criar linhas de crédito com juros menores, além de estudar renegociação e alongamento de dívidas das equipes. O BNDES aparece nas negociações como possível instrumento para financiar parte das medidas, a situação cria uma sequência incomum: o Estado regulamentou o mercado, empresas autorizadas passaram a investir valores bilionários no futebol, os clubes incorporaram esse dinheiro aos seus orçamentos e, diante da possibilidade de retirada das bets, o próprio governo agora discute mecanismos financeiros para ajudar as equipes atingidas ,dirigentes de Corinthians, Internacional e Atlético-MG estão entre os envolvidos nas conversas sobre um programa de renegociação de dívidas, segundo informações divulgadas nesta semana. Não existe, até agora, um modelo final definido para essa assistência e Lula, por sua vez, inicialmente adotou um discurso duro sobre a dependência dos clubes. Ao anunciar sua decisão política contra as bets, afirmou que as equipes deveriam aprender a funcionar como empresas e se adaptar a uma realidade sem o dinheiro das casas de apostas mas pouco depois, porém, o governo passou a negociar justamente medidas destinadas a amortecer o impacto dessa retirada.
Taxa das blusinhas percorreu caminho semelhante

Duas guinadas às vésperas da eleição
E é nesse ponto que a cronologia se torna politicamente relevante, o primeiro turno das eleições de 2026 acontece em 4 de outubro. Lula sancionou o fim da taxa das blusinhas em 10 de setembro, a 24 dias da votação. Agora, a nove dias das urnas, seu governo prepara para literalmente proibir as Bets em todo território nacional ,e a desculpa é a melhor, no caso das bets, Lula sustenta que as apostas provocam problemas sociais e retiram dinheiro principalmente das famílias de menor renda e os clubes e representantes do setor defendem outro caminho: manutenção da atividade legal com fiscalização mais rígida, proteção aos apostadores e combate às plataformas clandestinas, com certeza eu apoio a proibição das Bets, e eu quero deixar isso bem claro,pra min elas nem deveria ter entrado no Brasil, e parece que não sou só eu não, porque um pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta semana apontou 75% de apoio à proibição das bets, enquanto 17% dos entrevistados se declararam contrários ,então isso é quase um consenso nacional ,a questão aqui é o time, ou mais claro o time eleitoral, porque Lula teve muito tempo pra proibir as Bets no Brasil, mas ele escolhe fazer isso justamente agora, a poucos dias da eleição e justamente um mercado cuja regulamentação seu próprio governo conduziu e cuja legislação ele sancionou três anos antes.
E com a taxa das blusinhas, foi a mesma coisa, o movimento também começou com uma medida aceita e sancionada pelo presidente e terminou, em 2026, com Lula assinando sua retirada semanas antes da votação , mas pra min o caso das Bets, é muito pior, porque segundo a (CNC )Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, uma pesquisa realizada recentemente o Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), em agosto de 2026, chega 82%, ou seja 82% das famílias brasileiras estavam endividadas e esse maior patamar da série histórica. Em agosto de 2025 eram 78,8%, e tem também a questão dos clubes, já que um eventual proibição mexeria com empresas autorizadas, contratos milionários, publicidade, arrecadação e uma estrutura de patrocínios que passou a financiar boa parte do futebol nacional. Antes mesmo da decisão final, clubes já procuram alternativas, patrocinadores enviam notificações e o governo discute linhas de crédito para administrar os efeitos de uma mudança que ele próprio pretende provocar.
A questão política que acompanha a medida, portanto, não está apenas em saber se as bets devem continuar existindo. O debate também passa pela sequência de decisões tomadas desde 2023 e pelo momento escolhido para a guinada: depois de regulamentar o setor, permitir a consolidação de uma indústria bilionária e vê-la ocupar as camisas dos maiores clubes do país, o governo chega aos últimos dias da campanha eleitoral de 2026 defendendo exatamente o caminho oposto.
