As investigações da Polícia Federal envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, deixaram de se concentrar apenas nas relações do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com empresários e lobistas. Três inquéritos que apuram suspeitas de corrupção e tráfico de influência já alcançam ao menos quatro integrantes ou ex-integrantes do próprio governo federal, com servidores do Ministério do Desenvolvimento Social, auxiliares da Presidência e um ex-chefe de gabinete de Lula aparecendo no material analisado pelos investigadores, no centro das apurações está a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e personagem que aparece em diferentes frentes investigadas pela PF. A polícia suspeita que ela defendia interesses privados dentro do governo em parceria com Lulinha e o empresário Fernando Bittar, apontados pelos investigadores como possíveis sócios ocultos em determinados negócios.O que amplia o caso são as conexões encontradas entre essa atuação e pessoas que ocupavam posições dentro da administração federal. Mensagens, transferências bancárias, pagamentos de despesas e negociações para obtenção de contratos públicos passaram a formar diferentes partes de uma investigação que começou a se aproximar diretamente da estrutura do governo.

R$ 60 mil em espécie e pagamentos a integrantes de ministério

Uma das descobertas mais recentes surgiu da análise do celular de Roberta Luchsinger, segundo informações da investigação divulgadas pela CNN e pelo Estadão, em 2 de junho de 2023 Roberta orientou Ulisses Barbosa, apontado pela PF como operador financeiro, a retirar R$ 60 mil em espécie que estavam guardados em uma sacola dentro de sua residência ,as mensagens mostram Ulisses preocupado com a realização dos depósitos. Ele afirmou que o dinheiro precisaria ser dividido porque movimentações acima de determinado valor poderiam chamar a atenção do sistema bancário, Roberta então orientou que os recursos fossem enviados para contas diferentes naquele mesmo dia. Foram realizados pagamentos para Ranniêr Costa Ciríaco, atual secretário-executivo adjunto do Ministério do Desenvolvimento Social, e José Martinho Ferreira de Araújo, coordenador do cerimonial da pasta comandada pelo ministro Wellington Dias.

A PF agora analisa os dados obtidos com a quebra do sigilo de Roberta para descobrir se outros integrantes do ministério também receberam transferências ,o episódio ganhou outra dimensão por causa do que aconteceu meses depois pouco mais de seis meses após os pagamentos identificados nas mensagens,  Ministério do Desenvolvimento Social fechou um contrato de R$ 31,2 milhões com a empresa de tecnologia 3Structure, representada por Roberta Luchsinger , em abril de 2026, o ministério celebrou outro contrato com a mesma empresa, dessa vez no valor de R$ 19,2 milhões, somados, os dois contratos chegam a R$ 50,4 milhões , o ministério do Desenvolvimento Social afirma que não houve favorecimento e que a contratação ocorreu por pregão eletrônico. A pasta também declarou que Ranniêr e José Martinho não tinham competência sobre a área responsável pela licitação e, portanto, não participaram do processo a  3Structure declarou não ter conhecimento dos pagamentos e sustenta que seus contratos com o governo seguiram as normas aplicáveis às contratações públicas ,as explicações agora convivem com um conjunto objetivo de fatos que está sendo reconstruído pela PF: dinheiro mantido em espécie, ordem para divisão dos depósitos, transferências a pessoas que trabalhavam no ministério e, meses depois, contratos milionários assinados pela pasta com uma empresa representada pela mesma lobista.

Ex-chefe de gabinete de Lula teve R$ 217 mil em despesas pagas

Outro personagem que aparece nas apurações é Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, segundo a investigação, Roberta pagou aproximadamente R$ 217 mil em despesas de Marcola ao longo de 2024. Entre os gastos identificados estariam despesas de cartão de crédito e parcelas relacionadas a um veículo a defesa de Marcola afirma que os valores faziam parte de um empréstimo pessoal realizado por Roberta e posteriormente quitado. Também nega que o ex-chefe de gabinete tenha intermediado contratos, licitações ou negociações de interesse da empresária dentro do governo para a PF, porém, a movimentação integra um quadro mais amplo de relações financeiras mantidas pela lobista com pessoas próximas ao núcleo presidencial enquanto ela buscava abrir espaço para negócios com órgãos públicos.

Auxiliar da Presidência aparece em tratativas

Swedenberger Barbosa, que foi secretário-executivo do Ministério da Saúde e atualmente ocupa o cargo de chefe de gabinete adjunto da Presidência, é outro nome encontrado nas mensagens analisadas as conversas tratam de reuniões e iniciativas relacionadas a projetos de interesse de Roberta Luchsinger dentro do governo ,uma das empresas presentes nessas tratativas é a World Cannabis, ligada a negócios envolvendo medicamentos à base de cannabis. Swedenberger afirma que receber representantes e encaminhar propostas para avaliação das áreas técnicas fazia parte de suas funções e que os projetos apresentados por Roberta não avançaram ,o Ministério da Saúde também declarou que não manteve contrato com a World Cannabis a presença de Swedenberger interessa à investigação porque as tentativas de negócio analisadas pela PF chegaram justamente ao Ministério da Saúde e ao entorno da Presidência.

Negócio de R$ 627 milhões no Ministério da Saúde

Uma das maiores cifras encontradas nas investigações aparece em uma proposta para fornecimento de medicamentos à base de cannabis a negociação previa aproximadamente R$ 627 milhões em produtos destinados ao Ministério da Saúde, segundo a PF, Roberta buscou apoio para fazer o projeto avançar e teria acionado Lulinha durante as tratativas. Os investigadores apontam que determinadas demandas apresentadas por empresários dependiam da atuação do filho do presidente porém essa não foi a única tentativa. As apurações identificaram pelo menos três frentes de negócios de interesse do grupo no Ministério da Saúde: medicamentos à base de cannabis, testes para diagnóstico de arboviroses e uma parceria produtiva envolvendo a estatal goiana Iquego.

Nenhuma delas resultou nos contratos pretendidos no caso dos testes, os valores discutidos chegavam perto de R$ 1 bilhão, o tamanho das cifras colocou essas negociações em posição central no inquérito aberto para investigar suspeitas de corrupção e tráfico de influência. Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de investigação específica envolvendo Lulinha após pedido da Polícia Federal.

PF investiga se Lulinha era beneficiário de pagamentos

A ligação financeira que aproximou inicialmente Roberta de Lulinha surgiu durante a Operação Sem Desconto, investigação sobre o esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS,Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e apontado pela PF como personagem central do esquema, aparece em mensagens determinando uma transferência de R$ 300 mil para uma empresa de Roberta e quando o operador responsável pela transferência perguntou quem seria o destinatário do dinheiro, Antunes respondeu: “o filho do rapaz”.A PF passou a investigar se a expressão era uma referência a Lulinha ,no total, Roberta teria recebido R$ 1,5 milhão de uma empresa ligada ao Careca do INSS. Os investigadores passaram então a seguir o caminho do dinheiro para descobrir se parte desses recursos chegou ao filho do presidente já em fevereiro deste ano, André Mendonça autorizou, a pedido da própria Polícia Federal, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha.

Outros elementos encontrados posteriormente aumentaram o interesse dos investigadores na relação entre os dois ,relatórios da PF descrevem Roberta movimentando quantias relevantes em espécie por intermédio de seu motorista. Em uma das operações analisadas, após o recebimento de R$ 300 mil, mensagens registraram instruções para depósitos em contas diferentes e manutenção de parte do dinheiro dentro da residência e a polícia também identificou pagamentos de passagens de Lulinha realizados em dinheiro porém a defesa do filho do presidente é claro nega que ele tenha recebido recursos ilícitos ou atuado para obter contratos públicos e questiona interpretações feitas pela Polícia Federal a partir das mensagens recolhidas.

Caso já ultrapassa o círculo pessoal de Lulinha

A investigação chegou a um estágio diferente daquele observado quando surgiram as primeiras informações sobre a relação entre Lulinha e Roberta Luchsinger e naquele momento, o foco estava principalmente em descobrir se o filho do presidente teria sido destinatário de dinheiro movimentado por pessoas ligadas ao Careca do INSS ,agora, a PF analisa uma rede mais extensa então de um lado aparecem empresários interessados em contratos públicos e cifras que chegam a centenas de milhões de reais. Do outro estão transferências, dinheiro em espécie, despesas pagas e contatos com pessoas posicionadas dentro do Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério da Saúde e Presidência da República.

Ranniêr Costa Ciríaco, José Martinho Ferreira de Araújo, Marco Aurélio Santana Ribeiro e Swedenberger Barbosa aparecem por razões diferentes nos inquéritos. A situação de cada um também é distinta e as investigações ainda precisam definir quais relações terão consequência criminal , mas a recente sucessão de descobertas mudou o alcance político do caso , isso já não se trata apenas de explicar por que uma amiga de Lulinha recebeu dinheiro de um dos principais personagens do escândalo do INSS. A Polícia Federal agora tenta reconstruir como essa mesma lobista circulava entre integrantes do governo, movimentava dinheiro, financiava despesas e buscava abrir caminho para negócios milionários dentro da administração federal, e é justamente nessa rede que os investigadores tentam determinar qual era o papel de Lulinha , o que logo saberemos