Cinco homens apontados por diferentes investigações como operadores financeiros ligados ao Primeiro Comando da Capital permanecem foragidos, enquanto forças policiais tentam desmontar estruturas que teriam movimentado aproximadamente R$ 15 bilhões. Os casos alcançam postos e distribuidoras de combustíveis, empresas de fachada, fundos de investimento, instituições de pagamento e operações internacionais. A dimensão financeira ajuda a revelar uma facção muito diferente da organização dependente apenas do dinheiro em espécie obtido diretamente com tráfico, roubos e extorsões.

Os nomes procurados são Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco; Mohamad Hussein Mourad, chamado de Primo; Leonardo Meirelles; Amjad Ahmad; e Victor Henrique de Oliveira Shimada. Eles não integram necessariamente a mesma investigação nem são acusados exatamente das mesmas condutas. Beto Louco e Primo aparecem nos desdobramentos do esquema investigado pela Operação Carbono Oculto; Meirelles e Ahmad foram denunciados em outro núcleo apontado pelo Ministério Público paulista como estrutura destinada à movimentação e ocultação de recursos; Shimada passou a ser investigado em uma frente distinta e também foi sancionado pelo governo dos Estados Unidos.

A cifra de R$ 15 bilhões reunida pelas investigações dá uma dimensão do dinheiro atribuído aos operadores procurados, mas não deve ser confundida com todo o volume financeiro identificado nas operações que atingiram os negócios supostamente associados ao PCC. Somente a Carbono Oculto identificou movimentações superiores a R$ 50 bilhões no setor de combustíveis, segundo documentos oficiais do Ministério da Fazenda. Parte dessas transações envolve empresas e pessoas que vão além dos cinco foragidos atualmente procurados.

Combustíveis ofereceram escala para uma estrutura bilionária

A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, rompeu uma barreira importante na investigação do crime organizado porque atingiu simultaneamente setores da economia formal e mecanismos financeiros usados para esconder patrimônio.A Receita Federal informou que cerca de mil postos de combustíveis vinculados ao grupo investigado movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Pelo menos 40 fundos de investimento teriam participado de estruturas usadas para ocultação patrimonial, enquanto uma fintech exerceria função semelhante à de um banco paralelo.

Beto Louco e Primo foram denunciados por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica em uma das frentes relacionadas ao setor. Segundo a investigação citada nesta quinta-feira, o grupo sob influência dos dois teria utilizado empresas, estruturas financeiras e sonegação tributária para sustentar a engrenagem econômica. O Ministério Público paulista atribui ao esquema mais de R$ 1 bilhão em ICMS sonegado. As defesas negam as acusações e contestam os fundamentos da denúncia.

A escolha do mercado de combustíveis oferece características especialmente úteis a organizações que procuram misturar recursos de diferentes origens. Trata-se de uma cadeia extensa, com importadores, produtores, distribuidores, transportadores e milhares de pontos de venda realizando grande quantidade de transações diariamente. A Receita Federal afirma que as investigações encontraram infiltração do crime organizado desde a importação e produção até a revenda ao consumidor.

Essa estrutura permite que dinheiro ilegal seja misturado a atividades comerciais aparentemente regulares, enquanto sucessivas empresas e operações dificultam a identificação dos beneficiários finais. Documentos públicos sobre a Carbono Oculto registram utilização de fintechs, fundos de investimento e pessoas físicas e jurídicas interpostas. O Ministério da Fazenda informou ainda que ações fiscais relacionadas ao esquema produziram R$ 8,7 bilhões em créditos tributários e mais de R$ 1 bilhão em bens foi bloqueado cautelarmente.

Um sistema financeiro clandestino aparece no centro das investigações

Leonardo Meirelles e Amjad Ahmad aparecem em outro núcleo investigado pelo Ministério Público de São Paulo. Ambos foram denunciados por associação a organização criminosa e lavagem de dinheiro. Segundo a acusação, eles integrariam uma estrutura utilizada para receber, movimentar e ocultar dinheiro proveniente do tráfico e de outras atividades criminosas.

A promotoria descreveu esse mecanismo como um “Banco do Crime”. A expressão não significa que existisse uma instituição bancária formal com esse nome. Ela foi utilizada pelos investigadores para definir uma estrutura financeira clandestina que, segundo a acusação, funcionava como prestadora de serviços para integrantes do PCC, criando camadas entre a origem do dinheiro e seus beneficiários. Meirelles, Ahmad e outros 17 investigados foram denunciados dentro desse processo.

O método atribuído aos investigados mostra por que o combate moderno às facções deixou de depender apenas de apreensões de drogas ou armas. Uma organização com acesso a contas empresariais, fintechs, fundos, imóveis, empresas formalmente constituídas e estruturas de pagamento pode converter receita criminal em patrimônio aparentemente legítimo, financiar novas operações e preservar capital mesmo quando integrantes da base operacional são presos.

A Receita Federal reconheceu institucionalmente essa mudança depois da Carbono Oculto. Relatório do órgão afirma que os resultados da operação reforçaram a necessidade de ampliar obrigações de prestação de informações para instituições de pagamento e participantes de arranjos financeiros. A medida buscou aproximar o grau de rastreabilidade dessas empresas daquele aplicado tradicionalmente às instituições do sistema financeiro.

Victor Shimada levou a investigação financeira do PCC até os Estados Unidos

Victor Henrique de Oliveira Shimada representa outra frente das apurações. Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira, a Polícia Federal atribui à empresa Victory Trading, ligada ao empresário, movimentações superiores a R$ 10 bilhões relacionadas ao PCC. Shimada foi alvo da Operação Exchange, deflagrada pela PF em julho, e permanece procurado, o caso adquiriu dimensão internacional antes mesmo da atual procura policial. Em 1º de julho de 2026,o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Shimada em sua lista de pessoas sancionadas e associou formalmente o brasileiro ao PCC. Também foram sancionadas empresas ligadas a ele, entre elas Victory Trading, Pixwave Soluções de Pagamentos e Wave Construções Inteligentes.

O Tesouro americano afirma que Shimada exercia função de ligação entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. Segundo o órgão, a rede comandada por ele teria lavado mais de US$ 30 milhões provenientes de atividades ilícitas ocorridas em diferentes cidades americanas, utilizando inclusive criptomoedas para transferir recursos ao Brasil. Essas afirmações fazem parte da fundamentação adotada pelos Estados Unidos para as sanções e não correspondem a uma condenação criminal brasileira.

Washington passou a tratar a estrutura financeira do PCC como uma ameaça que ultrapassa as fronteiras brasileiras. O Departamento do Tesouro afirma que a organização mantém presença internacional e que seus operadores participam de tráfico de drogas, transporte de dinheiro e lavagem de recursos em diferentes países. No caso específico de Shimada, a sanção americana alcançou ainda uma empresa registrada em Portugal.

A fachada legal tornou-se parte da estratégia atribuída à facção

Os diferentes casos possuem uma característica em comum: a utilização de mecanismos típicos da economia formal. Postos de combustíveis, instituições de pagamento, sociedades empresariais, fundos, imóveis e transações eletrônicas aparecem repetidamente nas investigações. O dinheiro criminoso deixa de circular apenas entre pessoas diretamente vinculadas ao tráfico e passa por estruturas capazes de lhe conferir aparência comercial.

Essa infiltração não terminou com a grande operação realizada em 2025. Em agosto deste ano, Receita Federal, ANP, Secretaria da Fazenda paulista, procuradorias e Polícia Civil deflagraram a Operação Bomba Oculta, um novo desdobramento destinado a atingir postos que continuavam atuando clandestinamente. A Receita anunciou a inaptidão de 1.283 CNPJs e 228 inscrições estaduais, medida que impede essas empresas de manter normalmente contas bancárias e emissão de documentos fiscais.

A própria Receita afirma que a Carbono Oculto demonstrou infiltração do crime organizado em toda a cadeia nacional de combustíveis. A pulverização do mercado, com mais de 130 mil agentes econômicos, ajudaria a transformar o setor em instrumento para lavagem de dinheiro, sonegação tributária e adulteração. Desde 2019, mais de 10 mil autorizações de funcionamento de postos foram revogadas pela ANP por diferentes razões; as autoridades identificaram casos em que empresas continuaram operando clandestinamente mesmo depois de perder a autorização.

O efeito econômico desse modelo ultrapassa a lavagem do dinheiro obtido com crimes anteriores. Empresas que deixam de recolher tributos, utilizam capital de origem ilegal ou operam fora das exigências regulatórias conseguem competir em condições diferentes das impostas a negócios regulares. A consequência é uma combinação de perda de arrecadação, distorção concorrencial e expansão patrimonial de grupos criminosos dentro de mercados legais. O Ministério da Fazenda registrou oficialmente movimentações ilícitas superiores a R$ 50 bilhões apenas no conjunto investigado pela Carbono Oculto.

As defesas contestam as acusações

As investigações ainda estão sujeitas ao contraditório e ao julgamento judicial. A defesa de Mohamad Hussein Mourad classificou a denúncia relacionada à Carbono Oculto como especulativa e sustentou que a acusação não individualiza adequadamente os fatos atribuídos ao empresário. A defesa de Roberto Augusto Leme da Silva declarou que pretende demonstrar a improcedência da denúncia e questionar a validade do processo.

Até a publicação da reportagem que revelou a situação dos cinco procurados nesta quinta-feira, não haviam sido localizadas manifestações das defesas de Leonardo Meirelles, Amjad Ahmad e Victor Henrique Shimada sobre essa nova divulgação. As acusações contra os investigados permanecem submetidas à análise judicial, e a condição de foragido ou investigado não equivale a condenação.

A disputa contra o PCC migrou para contas, empresas e patrimônio

As cifras encontradas nas investigações mostram que uma parcela decisiva do combate às facções ocorre longe das apreensões tradicionais de drogas. Um grupo capaz de movimentar bilhões de reais precisa manter canais para transformar receita ilícita em patrimônio utilizável, pagar integrantes, adquirir empresas, esconder beneficiários e transferir recursos entre jurisdições, a Carbono Oculto expôs um ecossistema que alcançou combustíveis, fintechs e fundos de investimento. As apurações contra outros operadores acrescentaram estruturas financeiras clandestinas e movimentações internacionais. O caso Shimada levou essa rede às autoridades americanas, que passaram a sancionar pessoas e empresas brasileiras sob a alegação de prestação de serviços financeiros ao PCC.

A busca pelos cinco operadores ocorre nesse cenário. Os aproximadamente R$ 15 bilhões atribuídos a eles não representam toda a economia investigada em torno da facção, mas ilustram a escala alcançada por estruturas que, segundo as autoridades, funcionavam justamente para afastar o dinheiro de sua origem criminosa. A disputa contra o PCC passou a atingir CNPJs, contas bancárias, fundos, plataformas financeiras e patrimônios que conseguem permanecer na economia legal muito depois de uma carga de droga desaparecer das ruas.