Com cerca de 21 milhões de toneladas em reservas e posição privilegiada na corrida global por minerais estratégicos, o Brasil continua muito distante de transformar riqueza geológica em poder industrial. O Congresso acaba de aprovar uma política para o setor, mas o atraso acumulado expõe um problema antigo: o país possui a matéria-prima que movimentará parte da economia do século XXI e ainda depende do exterior para transformar esse patrimônio em tecnologia de alto valor.
O Brasil ocupa uma posição que poucas economias possuem. O país detém aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, o segundo maior volume do mundo, atrás apenas da China. São elementos indispensáveis para motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares, smartphones, notebooks, semicondutores, robótica e uma longa lista de tecnologias que ganharão peso econômico e estratégico nas próximas décadas. Mesmo com esse patrimônio enterrado no território nacional, a produção brasileira foi de apenas cerca de 2 mil toneladas em 2025, enquanto a China chegou a aproximadamente 270 mil toneladas.
O atraso fica ainda mais constrangedor quando a discussão sai da mineração e chega ao processamento. Segundo levantamento publicado nesta quarta-feira, o Brasil responde por apenas cerca de 0,02% do processamento mundial desses minerais. A China, por outro lado, controla aproximadamente 90% da separação e do processamento de terras raras. O problema brasileiro, portanto, não é ausência de recurso natural. É incapacidade de construir uma cadeia industrial capaz de transformar minério em componentes de alto valor agregado.
Essa diferença separa um país que possui riqueza de um país que sabe explorá-la economicamente. Vender matéria-prima e posteriormente importar componentes tecnológicos significa abrir mão justamente da etapa que concentra conhecimento, produtividade, empregos qualificados e margens maiores. Durante décadas, o Brasil conviveu com essa deficiência enquanto sucessivos governos repetiam discursos sobre reindustrialização, soberania e desenvolvimento tecnológico. Em 2026, o resultado concreto ainda é uma participação praticamente irrelevante no processamento mundial.
O Congresso finalmente criou uma política para o setor

Há uma informação política que não deveria desaparecer atrás da propaganda do Planalto: o projeto não nasceu no governo Lula. O PL foi apresentado pelo deputado Zé Silva, do Solidariedade de Minas Gerais, e começou sua tramitação em 2024 no Congresso. Posteriormente, a proposta passou a integrar a agenda considerada prioritária pelas presidências da República, Câmara e Senado. Portanto, apresentar a nova política simplesmente como uma realização concebida pelo Executivo seria apagar a origem legislativa da iniciativa.
A aprovação é necessária, mas chega quando a corrida internacional já está avançada. Estados Unidos, China e outras grandes economias tratam minerais críticos como tema de segurança econômica e geopolítica. Eles não discutem apenas quem possui a mina, mas quem domina refino, separação, fabricação de ligas, ímãs permanentes e componentes industriais. O poder econômico está na cadeia completa. O Brasil entra nessa disputa carregando uma vantagem geológica extraordinária e uma estrutura industrial insuficiente para aproveitá-la.
O texto aprovado tenta atacar parte dessa fragilidade ao incentivar processamento nacional, pesquisa, rastreabilidade e desenvolvimento tecnológico. Esses instrumentos podem melhorar o ambiente para investimentos se forem executados com previsibilidade. O risco aparece quando Brasília recorre ao velho reflexo brasileiro de acreditar que bilhões de reais em incentivo estatal substituem ambiente de negócios, segurança jurídica, infraestrutura, licenciamento eficiente, energia competitiva e estabilidade regulatória. Não substituem. Sem essas condições, dinheiro público vira compensação para problemas que o próprio Estado ajuda a produzir.
Enquanto Brasília discutia soberania, a única operação brasileira mudou de mãos
O caso da Serra Verde, em Goiás, ajuda a mostrar a dimensão da corrida mundial. A empresa opera a mina Pela Ema, apontada como a única operação brasileira ativa de extração de terras raras em escala comercial. Em abril, a Serra Verde foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth em uma operação anunciada por aproximadamente US$ 2,8 bilhões. O Cade abriu procedimento para analisar a transação e verificar seus efeitos concorrenciais.
Segundo as informações divulgadas sobre o negócio, a operação brasileira deverá participar de uma cadeia internacional que reúne mineração, processamento, separação, metalização e fabricação de ímãs. A Serra Verde também firmou acordo de fornecimento de longo prazo envolvendo a produção de sua primeira fase. Tudo isso ocorre enquanto o Brasil tenta construir sua própria capacidade industrial no setor.
É difícil encontrar retrato mais claro da lentidão brasileira. O país possui a segunda maior reserva mundial, o mercado internacional disputa esses minerais agressivamente e uma das operações mais estratégicas do território passa a fazer parte de uma companhia estrangeira enquanto Brasília ainda discute como organizar uma política nacional.
Tratar esse quadro exclusivamente como uma discussão sobre nacionalidade do capital seria simplista. Capital estrangeiro pode trazer tecnologia, financiamento, capacidade de produção e acesso a mercados. O fracasso está em chegar a esse momento sem uma cadeia nacional suficientemente desenvolvida para disputar as etapas de maior valor. Investimento internacional é desejável; dependência tecnológica não é. O objetivo deveria ser fazer empresas competirem para produzir, processar e desenvolver tecnologia dentro do Brasil, e não manter o país satisfeito com royalties e exportação de concentrado.
O atraso brasileiro não começou em 2026

O próprio discurso governista de “soberania” perde força quando confrontado com os números. Soberania econômica não nasce de pronunciamentos contra países estrangeiros. Ela depende de capacidade produtiva. Um Brasil que possui milhões de toneladas de terras raras, mas processa apenas uma fração minúscula do mercado mundial, está longe de exercer o poder econômico sugerido por suas reservas.
Também existe uma contradição recorrente na estratégia econômica do governo Lula. O Planalto fala em reindustrialização enquanto mantém uma estrutura estatal pesada, tributação complexa, insegurança regulatória e elevada necessidade de gasto público. Para uma indústria de mineração e processamento que exige bilhões em capital, planejamento por décadas e enorme risco tecnológico, previsibilidade institucional vale tanto quanto incentivo fiscal. O investidor precisa saber quais regras estarão vigentes durante toda a maturação do projeto, e não apenas qual benefício Brasília oferece naquele exercício fiscal.
A nova política poderá ajudar caso produza exatamente isso: investimento privado, infraestrutura, tecnologia, processamento e competição. Caso se transforme em mais fundos, conselhos, burocracia e distribuição política de incentivos, o Brasil poderá chegar à próxima década mantendo toneladas de riqueza no subsolo e uma participação industrial insignificante.
O verdadeiro negócio está depois da mina
A discussão sobre terras raras costuma começar pela quantidade de reservas, quando deveria terminar perguntando quanto valor o país consegue gerar com elas. Tirar minério do solo é apenas a primeira etapa. Separação química, refino, produção de metais, ligas especiais e fabricação de ímãs permanentes multiplicam o valor econômico dessa cadeia. É justamente aí que a China construiu sua posição dominante.
Os números mostram o tamanho da oportunidade perdida. Um estudo citado em análises recentes estima que uma estratégia capaz de ampliar processamento e uso industrial dos minerais críticos poderia adicionar até R$ 192,1 bilhões à economia brasileira até 2050 e contribuir para a criação de até 750 mil empregos. Um cenário concentrado principalmente na exportação de produtos de menor valor agregado produziria resultado econômico muito menor.
Essa deveria ser uma pauta central para qualquer governo que fale seriamente em produtividade, crescimento e independência tecnológica. Não exige criar uma gigantesca estatal mineral nem escolher empresários amigos para receber subsídios. Exige regras estáveis, abertura ao investimento, formação técnica, infraestrutura e um ambiente capaz de convencer empresas brasileiras e estrangeiras de que vale a pena construir aqui as etapas sofisticadas da cadeia.
O Congresso colocou uma nova legislação na mesa. A responsabilidade do Executivo, caso o texto seja sancionado, será transformar essa estrutura em resultado. Lula não deveria receber crédito antecipado por uma indústria que ainda não existe. Depois de anos de retórica sobre soberania e reindustrialização, o parâmetro precisa ser mais exigente: fábricas funcionando, tecnologia instalada, investimento privado contratado, produção crescendo e participação brasileira aumentando no mercado mundial.
O Brasil não descobriu agora que possui minerais estratégicos. Tampouco descobriu em 2026 que tecnologia vale muito mais do que minério bruto. O que faltou foi transformar conhecimento em política econômica consistente. Ter a segunda maior reserva do planeta e responder por aproximadamente 0,02% do processamento mundial não é uma conquista a celebrar. É a medida do tamanho do atraso.
