Encontro em Washington coloca comércio, inteligência artificial, terras raras e segurança internacional no centro das negociações entre as duas maiores economias do mundo, Donald Trump e Xi Jinping voltam a ficar frente a frente em um dos encontros diplomáticos mais importantes de 2026. O presidente dos Estados Unidos receberá o líder chinês na Casa Branca nesta quinta-feira, 24 de setembro, durante uma visita de Estado que ocorre em um momento de relativa estabilização das relações comerciais, mas ainda cercado por disputas envolvendo tecnologia, inteligência artificial, minerais críticos e questões geopolíticas ,essa será a segunda cúpula entre Trump e Xi neste ano. A visita também marca a primeira viagem de Estado de Xi a Washington em 11 anos e acontece poucos meses depois de Trump ter ido a Pequim.

O Ministério das Relações Exteriores da China confirmou que a visita ocorre a convite do presidente americano. Segundo Pequim, os dois líderes devem discutir temas relacionados às relações bilaterais e questões internacionais. O governo chinês afirma que pretende ampliar o diálogo e a cooperação com Washington ao mesmo tempo em que administra as divergências entre os países, por trás da linguagem diplomática, porém, existe uma agenda econômica extensa. Estados Unidos e China continuam tentando administrar uma relação que combina dependência comercial, competição tecnológica e interesses estratégicos frequentemente divergentes.

Comércio volta ao centro das negociações

A relação comercial deverá ocupar uma parcela importante das conversas entre Trump e Xi, os dois países atravessaram períodos de forte tensão tarifária antes de alcançarem uma trégua comercial. Segundo a Reuters, as negociações realizadas nos últimos meses permitiram reduzir parte das tensões, mas vários dos principais pontos de atrito permanecem sem solução,entre os assuntos americanos estão as compras chinesas de produtos dos Estados Unidos e o acesso de empresas americanas ao mercado chinês. Pequim, por sua vez, acompanha de perto as restrições impostas por Washington principalmente sobre setores considerados estratégicos, representantes dos dois governos passaram os últimos dias preparando o terreno para o encontro.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o vice-premiê chinês He Lifeng realizaram uma nova rodada de negociações em Nova York. Comércio, inteligência artificial e minerais críticos estiveram entre os assuntos discutidos, uma das possibilidades discutidas pelos negociadores americanos envolve reduções tarifárias para determinados produtos considerados não estratégicos, até agora, entretanto, não houve acordo em algumas áreas consideradas importantes por Washington, incluindo a ampliação das compras chinesas de produtos agrícolas americanos e de aeronaves, o encontro entre os presidentes deverá servir justamente para tentar avançar nas questões que as equipes técnicas não conseguiram resolver.

Inteligência artificial vira assunto de Estado

A inteligência artificial também ganhou espaço inédito na agenda bilateral, os Estados Unidos e China concentram algumas das maiores empresas, centros de pesquisa e investimentos em IA do mundo, transformando a tecnologia em mais uma dimensão da competição estratégica entre as duas potências, nas negociações realizadas antes da cúpula, Washington apresentou uma proposta para criar um mecanismo bilateral de comunicação relacionado à segurança da inteligência artificial, a ideia discutida prevê que os países possam trocar informações e eventualmente comunicar incidentes significativos envolvendo sistemas avançados de IA. Também existe interesse em estabelecer um diálogo permanente sobre segurança, transparência e riscos associados à tecnologia.

O Ministério das Relações Exteriores chinês não antecipou se algum acordo será anunciado durante o encontro, questionado sobre a possibilidade nesta semana,o porta-voz Guo Jiakun afirmou que a posição chinesa defende o desenvolvimento aberto e inclusivo da inteligência artificial e pediu cooperação internacional na área, a discussão acontece enquanto Washington mantém controles sobre a exportação de determinados semicondutores e tecnologias avançadas para a China.Isso transformou chips, infraestrutura computacional e inteligência artificial em elementos centrais da relação econômica entre os países.

Terras raras aumentam poder de negociação da China

Outro assunto particularmente sensível são as terras raras ,sim, esse tema não poderia ficar de fora ,já que esses minerais são utilizados em produtos que vão de veículos elétricos e smartphones a equipamentos militares, turbinas e diferentes componentes eletrônicos, a posição chinesa nesse mercado dá a Pequim uma importante ferramenta econômica nas negociações internacionais,o governo americano afirma que a China ainda não retomou completamente determinados fornecimentos de terras raras que haviam sido discutidos anteriormente entre os países.Pequim afirma que está comprometida com a estabilidade das cadeias globais de fornecimento de minerais críticos, o assunto não envolve apenas os Estados Unidos ,restrições chinesas também passaram a afetar cadeias produtivas relacionadas ao Japão, com reflexos que podem chegar às empresas americanas que dependem desses materiais ,a questão das terras raras deverá, portanto, aparecer novamente nas conversas entre Trump e Xi.

Yuan chega ao maior nível em mais de três anos

Os mercados financeiros também começaram a reagir antes mesmo do encontro ,em 21 de setembro, o yuan atingiu seu maior valor em mais de três anos e meio diante do dólar, a moeda chinesa chegou a aproximadamente 6,695 yuans por dólar no mercado doméstico, enquanto a cotação offshore ficou em torno de 6,6946.O Banco Popular da China estabeleceu ainda uma taxa de referência de 6,7487 yuans por dólar, o nível mais forte desde fevereiro de 2023 ,a movimentação ocorreu depois que o banco central chinês reduziu parte da resistência que vinha impondo à valorização de sua moeda. Analistas ouvidos pela Reuters associaram o movimento à tentativa de manter maior estabilidade cambial antes da reunião entre os presidentes, embora fatores econômicos domésticos continuem influenciando a trajetória do yuan, a moeda é um componente importante da relação comercial entre Estados Unidos e China porque alterações significativas na taxa de câmbio afetam diretamente a competitividade das exportações dos dois países.

China anuncia novas medidas relacionadas ao fentanil

Outro movimento de Pequim aconteceu às vésperas da reunião nesta quarta-feira, 23 de setembro, autoridades chinesas divulgaram novas diretrizes para o tratamento de processos criminais envolvendo substâncias relacionadas ao fentanil, as regras foram apresentadas por autoridades judiciais e de segurança pública chinesas e tratam da aplicação das leis contra substâncias utilizadas nesse mercado. O tema é especialmente importante para Washington, os Estados Unidos pressionam há anos o governo chinês para aumentar o controle sobre produtos químicos que podem ser utilizados na fabricação de opioides sintéticos, o fentanil tornou-se uma das principais questões de saúde pública americanas e passou também a fazer parte das negociações diplomáticas entre Washington e Pequim, a divulgação das novas orientações justamente na véspera do encontro coloca novamente o assunto na agenda bilateral.

Grandes empresas chinesas acompanham aproximação

A dimensão empresarial da visita também chama atenção, executivos de algumas das maiores companhias chinesas foram cotados para acompanhar a delegação de Xi Jinping nos Estados Unidos, Entre as empresas mencionadas estão BYD, CATL, Xiaomi, Gotion, Hisense, Bank of China e COFCO Group. A lista definitiva, segundo fontes ouvidas pela Reuters, ainda estava sendo definida nos dias anteriores à viagem ,a presença desses grupos é relevante porque várias dessas companhias atuam justamente nos setores em que a competição entre Estados Unidos e China se tornou mais intensa. A BYD e a CATL estão entre as maiores empresas chinesas ligadas respectivamente aos mercados de veículos elétricos e baterias, enquanto a Xiaomi possui presença crescente no setor de eletrônicos e tecnologia, algumas dessas companhias também enfrentam diferentes níveis de escrutínio regulatório nos Estados Unidos,a visita ocorre poucos meses depois de Trump ter levado executivos americanos durante sua própria viagem à China, em maio.

Taiwan continua como uma das questões mais delicadas

A relação entre Washington e Pequim também permanece marcada por assuntos que ultrapassam a economia. Taiwan continua entre as questões mais sensíveis ,a China considera a ilha parte de seu território e se opõe a iniciativas que interprete como apoio à independência taiwanesa. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm relações não oficiais com Taiwan e fornecem equipamentos militares à ilha, o próprio Estreito de Taiwan voltou ao noticiário nesta semana depois que dois navios militares da Nova Zelândia atravessaram a região, questionado sobre o episódio, o Ministério das Relações Exteriores chinês reiterou que mantém sua posição tradicional sobre a passagem de embarcações militares estrangeiras pelo estreito. Taiwan integra um conjunto maior de divergências estratégicas que também inclui segurança no Indo-Pacífico, tecnologia militar e presença americana na região.

Relação entre EUA e China mistura competição e dependência

A reunião entre Trump e Xi ocorre em um cenário diferente daquele observado nos períodos mais intensos da disputa comercial ,Washington e Pequim continuam competindo diretamente em áreas estratégicas, mas os dois governos também tentam criar mecanismos capazes de impedir que divergências comerciais ou militares produzam uma escalada difícil de controlar ,o comércio entre as duas maiores economias continua relevante para empresas e consumidores dos dois lados.

Ao mesmo tempo, inteligência artificial, semicondutores, veículos elétricos, baterias e minerais críticos transformaram antigas discussões comerciais em uma disputa mais ampla sobre tecnologia e cadeias produtivas, é justamente essa combinação que torna o encontro desta quinta-feira particularmente importante ,a Casa Branca busca avanços em comércio, fornecimento de minerais estratégicos e segurança tecnológica. Pequim chega às negociações tentando preservar seus interesses econômicos e reduzir barreiras impostas pelos Estados Unidos. O governo chinês descreve a nova etapa da relação como uma tentativa de construir uma “estabilidade estratégica construtiva”, com diálogo e cooperação coexistindo com as divergências entre os países , depois de meses de negociações entre ministros, secretários e equipes comerciais, Trump e Xi terão agora a oportunidade de tratar diretamente dos pontos que continuam pendentes, o resultado do encontro poderá influenciar não apenas as relações entre Washington e Pequim, mas também mercados globais, cadeias de tecnologia e decisões de empresas que dependem das duas maiores economias do planeta.