Trump acompanha crise no STF e novas sanções contra Moraes voltam ao radar dos EUA

A crise aberta dentro do Supremo Tribunal Federal passou a ser acompanhada diretamente pelo governo de Donald Trump. Autoridades americanas avaliam uma nova rodada de sanções contra integrantes da Corte, e Alexandre de Moraes voltou a ocupar o centro das discussões em Washington enquanto o STF decide nesta terça-feira, 15 de setembro, se autoriza uma investigação envolvendo o ministro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo a Folha de S.Paulo, uma alta autoridade do Departamento de Estado afirmou que as medidas americanas não estão apenas em estudo: opções já foram elaboradas e podem ser adotadas conforme os próximos desdobramentos no Brasil.Moraes está entre os nomes acompanhados, mas integrantes do governo Trump também analisam a atuação de outros ministros. A decisão final sobre qualquer nova punição cabe ao presidente americano e ainda não existe uma data anunciada para sua adoção.

Washington reservou atenção especial à sessão extraordinária do Supremo desta terça-feira. O tribunal analisa informações reunidas pela Polícia Federal a partir do celular de Vorcaro e decide se há base para avançar formalmente sobre a conduta de Moraes. A Reuters relata que documentos judiciais também mostram que o escritório de advocacia pertencente à mulher do ministro mantinha um contrato de consultoria de cerca de US$ 24 milhões com o Banco Master. Moraes nega irregularidades e acusa André Mendonça de abuso de autoridade na divulgação das informações.

Lei Magnitsky já foi usada contra Moraes e pode voltar à mesa

A possibilidade mais pesada discutida nos Estados Unidos passa novamente pela Lei Global Magnitsky, mecanismo utilizado pelo governo americano para impor restrições financeiras a estrangeiros acusados de corrupção grave ou violações de direitos humanos.

Moraes já conhece seus efeitos. Em 30 de julho de 2025, o Departamento do Tesouro americano incluiu o ministro em sua lista de sancionados. Na ocasião, o governo Trump acusou Moraes de autorizar detenções arbitrárias, restringir a liberdade de expressão e utilizar seu poder judicial contra adversários políticos, jornalistas e empresas americanas. Bens e interesses sob jurisdição dos Estados Unidos ficaram sujeitos a bloqueio, enquanto transações envolvendo o ministro passaram a sofrer restrições.

A ofensiva foi ampliada em setembro daquele ano, quando Viviane Barci de Moraes e o Instituto Lex também foram sancionados. O Departamento do Tesouro afirmou que a medida alcançava estruturas que davam suporte financeiro ao ministro. As punições foram retiradas em dezembro de 2025, durante uma fase de aproximação diplomática entre Trump e Lula.

A retirada das restrições chegou a ser comemorada pelo governo Lula como uma vitória diplomática. Meses depois, o cenário mudou novamente. Antes mesmo de a atual disputa envolvendo Banco Master e STF atingir o nível observado em setembro, Washington já discutia a possibilidade de novas medidas contra Moraes. Em agosto, a Reuters informou que o tema havia retornado às conversas do governo americano.

As informações envolvendo Vorcaro aumentaram a pressão sobre Moraes em Washington. Integrantes do governo Trump que já criticavam decisões do STF voltaram a discutir a aplicação de sanções contra o ministro, retiradas em dezembro de 2025.

Eduardo Bolsonaro volta a Washington para pressionar pela retomada das sanções

Eduardo Bolsonaro também retomou sua articulação nos Estados Unidos. O ex-deputado afirmou à Reuters que pretende defender novamente a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes durante viagem a Washington. Segundo ele, a campanha por sanções ocorre há mais de um ano e não teria relação com a eleição presidencial disputada por seu irmão, Flávio Bolsonaro.

A proximidade da eleição, porém, entrou nos cálculos americanos. A Folha informou que uma ala do Departamento de Estado temia que uma nova ofensiva dos Estados Unidos pudesse ser explorada eleitoralmente por Lula sob o discurso de defesa da soberania nacional. Uma pesquisa da McLaughlin & Associates, ligada ao campo republicano, foi usada para medir esse risco.

O levantamento ouviu 1.991 eleitores. Entre os entrevistados, 53,3% disseram que uma retomada das sanções contra Moraes não alteraria seu voto. Outros 24,7% afirmaram que ficariam mais propensos a votar em Flávio Bolsonaro, enquanto 18,2% disseram que a medida aumentaria sua chance de votar em Lula. A margem de erro informada foi de dois pontos percentuais. Segundo a reportagem, os números reduziram dentro da administração americana o receio de que novas punições necessariamente produzissem ganho eleitoral para o presidente brasileiro.

As possíveis sanções continuam sendo discutidas em Washington durante a campanha brasileira. O governo Trump pode recorrer a bloqueios financeiros, restrições diplomáticas e proibições de entrada nos Estados Unidos contra autoridades brasileiras, medidas que já foram usadas anteriormente contra o próprio Alexandre de Moraes, e isso teoricamente deveria colocar pressão nos STF, porém diante de tudo que nos já vimos, a pergunta que fica é será que isso vai ter algum efeito no Brasil ?

A crise interna do STF deixou de ser apenas uma disputa brasileira

A discussão americana ocorre quando o próprio Supremo atravessa uma sequência de conflitos entre seus integrantes. Edson Fachin precisou intervir em decisões contraditórias envolvendo André Mendonça e Flávio Dino, assumiu o controle de processos sensíveis e convocou uma sessão extraordinária para discutir a situação de Moraes. A Reuters descreveu o episódio como uma das crises mais graves enfrentadas pela Corte em décadas.

Na sessão desta terça-feira, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli declararam impedimento para participar da votação. O plenário analisa se deve ser aberta uma investigação formal a partir das informações encontradas no caso Master. A discussão não decide a culpa de Moraes; trata da existência ou não de elementos suficientes para que sua atuação seja investigada.

O governo Lula por sua vez adotou uma posição clara quando as primeiras sanções foram impostas em 2025. Em nota oficial, o Planalto classificou as medidas americanas como interferência no Judiciário brasileiro e afirmou que elas atingiam a soberania do Brasil, Esse argumento deverá continuar presente no embate diplomático caso Washington avance novamente contra integrantes do Supremo.

A disputa, entretanto, agora ocorre em condições diferentes das encontradas no ano passado. O questionamento sobre a atuação de Moraes não parte apenas de adversários políticos ou de autoridades estrangeiras. O Supremo está discutindo internamente informações produzidas pela Polícia Federal, ministros entraram em confronto público e o próprio plenário foi chamado a decidir se um de seus integrantes deve ser investigado.

Se o STF autorizar a investigação, a apuração passará a alcançar formalmente um de seus próprios ministros. Se rejeitar o procedimento ou invalidar o material reunido pela Polícia Federal, a Corte terá de fundamentar essa decisão em meio à pressão interna e ao acompanhamento do caso por autoridades dos Estados Unidos, até agora, o governo Trump não anunciou uma nova aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes. A possibilidade continua em discussão nos Estados Unidos, e essa possiblidade passa a assombrar a corte e seus aliados próximos, inclusive o próprio Lula