A região de Moscou sofreu neste domingo, 20 de setembro, o maior ataque de drones registrado contra a capital russa desde o início da guerra na Ucrânia. A ofensiva ocorreu durante o terceiro e último dia da eleição para a Duma Estatal, a primeira votação parlamentar realizada pela Rússia desde a invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.
O Ministério da Defesa russo afirmou ter derrubado 1.110 drones ucranianos durante a onda de ataques. Sergei Sobyanin, prefeito de Moscou, disse que cerca de 450 aparelhos foram interceptados enquanto seguiam em direção à capital. A dimensão exata da operação não pôde ser verificada de forma independente, mas tanto a Reuters quanto a Associated Press registraram a ofensiva como a maior já relatada contra Moscou.
Mesmo com o número de interceptações divulgado pelas autoridades russas, alguns drones chegaram aos seus alvos. Parte da refinaria de petróleo de Moscou foi atingida e imagens registraram grandes colunas de fumaça na área industrial da cidade. Um edifício residencial também sofreu danos.
O governador da região de Moscou, Andrei Vorobyov, informou que três pessoas morreram em consequência dos ataques. Duas morreram durante a madrugada e uma terceira não resistiu aos ferimentos após ser levada ao hospital. Cerca de 400 moradores, entre eles 70 crianças, tiveram de deixar um prédio residencial de 21 andares no distrito de Ramenskoye.
Refinaria de Moscou voltou a ser atingida

A refinaria localizada na capital já havia sido alvo de ataques ucranianos anteriores. Segundo os dados mais recentes citados pela Reuters, a instalação processou 11,6 milhões de toneladas de petróleo em 2024, com produção de aproximadamente 2,9 milhões de toneladas de gasolina e 3,2 milhões de toneladas de diesel naquele ano.
A infraestrutura energética russa tornou-se um dos principais alvos das operações ucranianas de longo alcance. Nos últimos meses, refinarias, depósitos de combustíveis e instalações relacionadas ao transporte de petróleo foram atingidos em diferentes regiões do país.
Volodymyr Zelensky afirmou neste domingo que as forças ucranianas utilizaram drones e armamentos produzidos no próprio país, incluindo os mísseis Flamingo e Pelican, contra instalações ligadas aos setores de petróleo e logística. O presidente ucraniano relacionou esses ataques à tentativa de reduzir as receitas e a capacidade logística utilizadas pela Rússia para sustentar suas operações militares.
O impacto sobre o setor de combustíveis russo já vinha sendo sentido antes da ofensiva deste domingo. Ataques anteriores contra refinarias reduziram parte da capacidade de processamento do país e foram acompanhados por falta de produtos derivados de petróleo, aumento de preços e filas em postos de algumas regiões, segundo a Reuters.
Ataque ocorreu no último dia das eleições para a Duma
A data escolhida para a ofensiva colocou o ataque diretamente no ambiente político russo. A votação para definir os 450 integrantes da Duma Estatal começou na sexta-feira, 18 de setembro, e terminou neste domingo. Trata-se da primeira eleição parlamentar do país desde o início da guerra em grande escala contra a Ucrânia.
Vladimir Putin havia apresentado a eleição como uma demonstração do apoio popular às Forças Armadas e às políticas adotadas pelo governo durante a guerra. O partido Rússia Unida, que apoia o presidente, entrou na votação mantendo amplo domínio do sistema político e parlamentar russo.
A disputa ocorreu com forte limitação da oposição contrária à guerra. Grande parte dos candidatos com posições abertamente críticas ao conflito foi impedida de participar. Alguns integrantes do partido liberal Yabloko conseguiram disputar cadeiras individuais, enquanto dirigentes da legenda receberam penas de prisão nos meses anteriores por declarações relacionadas à guerra.
A Rússia também realizou a votação na Crimeia e em partes das regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia que estão sob controle russo. Moscou considera esses territórios parte da Federação Russa após as anexações anunciadas durante a guerra, enquanto a Ucrânia e grande parte da comunidade internacional não reconhecem essas incorporações.
Sobyanin afirmou que o ataque contra Moscou tinha como objetivo prejudicar a eleição. Essa interpretação foi apresentada pelas autoridades russas; até a publicação das informações disponíveis neste domingo, Kiev não havia declarado que a votação parlamentar fosse o alvo específico da operação.
Guerra de drones alcança cada vez mais o território russo

Os ataques de longo alcance passaram a ocupar uma parcela crescente da guerra conforme Ucrânia e Rússia ampliaram a produção de drones e mísseis. A Ucrânia desenvolveu modelos capazes de percorrer centenas de quilômetros e passou a utilizá-los contra refinarias, depósitos, instalações militares e estruturas logísticas situadas longe da fronteira.
Moscou, que durante os primeiros anos da guerra estava relativamente distante dos combates diretos, tornou-se um alvo recorrente. A escala observada neste domingo, porém, superou os ataques anteriores relatados pelas próprias autoridades russas.
Essa expansão ocorre enquanto os dois países mantêm ataques aéreos contra instalações do adversário. No mesmo fim de semana da ofensiva contra Moscou, drones russos atingiram a região de Kiev. Autoridades ucranianas disseram que uma mãe e seus dois filhos de três anos morreram quando uma residência foi atingida. Outra criança morreu posteriormente no hospital devido aos ferimentos sofridos em outro ataque.
O crescimento das operações com drones também alterou as condições de combate na linha de frente, que se estende por aproximadamente 1.250 quilômetros no leste e no sul da Ucrânia. A presença constante de aeronaves não tripuladas dificulta movimentações de tropas e veículos, enquanto os ataques de maior alcance levam a guerra para centros industriais e áreas urbanas localizadas muito além das posições terrestres.
A ofensiva de 20 de setembro reúne essas duas características da fase atual do conflito. Moscou sofreu um ataque de escala inédita justamente no momento em que o Kremlin realizava sua primeira eleição parlamentar desde 2022, enquanto a infraestrutura de petróleo voltou a aparecer entre os alvos atingidos pelas forças ucranianas.
